A nova família, a antiga recomendação (pelo mês da família)

•Maio 18, 2009 • Deixe um comentário

A família

Presume-se que em algum lugar do passado tenha sido tarefa fácil pensar sobre família. Este parece não ser o caso do mundo contemporâneo. Se entendermos família como um grupo de pessoas que vivem sobre o mesmo teto e se caracteriza, especialmente, pelo laço sanguíneo, étnico e de ancestralidade, podemos dizer que as coisas não funcionam mais desta maneira. A família moderna, ou pós-moderna, não se amolda mais nos antigos padrões sociais. Nem sempre contém um pai, ou mesmo, uma mãe. E se existem filhos, não é de se esperar que sejam do mesmo pai, ou da mesma mãe. Pode até ser que sejam somente de um ou de outro, sem ligação de parentesco. Os casais nem sempre são casados – da forma tradicional, civil e religioso – às vezes são como namorados. A propósito, o namoro atual é como o casamento antigo, com relações mais sérias como vida sexual e financeira.

Segundo dados do IBGE nas duas últimas décadas houve uma queda substancial do tamanho da família em todas as regiões: de 4,3 pessoas por família em 1981, chegou a 3,3 pessoas em 2001. O número médio de filhos por família é de 1,6 filhos. Em 2002, o número médio de pessoas na família se manteve o mesmo em quase todas as regiões e por isso a média para o país se manteve em 3,3 pessoas, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2003. O número médio de filhos apresentou uma diferença mínima em relação ao ano anterior: de 1,6 para 1,5 filhos na família em domicílios particulares. A socióloga Ana Lúcia Sabóia, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz que o processo de queda do número de pessoas na família brasileira “além de intenso, aconteceu em um tempo muito curto. Nos países europeus, esse decréscimo demorou cinquenta anos”, afirmou a especialista.

O formato familiar também sofreu acomodação. Em nossos dias sabe-se de avós que cumprem o papel dos pais, ou famílias lideradas somente pela mãe, ou somente pelo pai. Há também estruturas mais complexas, com mãe e avó ou pai e avó, ou ainda, mãe e pai com padrasto e madrasta. Também casais homossexuais que passam a formar famílias de pai, pai e filho ou mãe, mãe e filho. Além disso, algumas famílias são formadas somente de irmãos e irmãs, outras somente de casais, outras de pessoas que se aproximam sem fins afetivos, mas que por diversas razões, acabam exercendo mutuamente o papel de cuidadores.

Os valores presentes na modernidade também incidem sobre os moldes familiares. O pluralismo, como capacidade multidisciplinar de interpretação das questões da existência, tão adequado aos novos contextos da civilização, favorece o surgimento de conceituações diversas sobre a qualidade e o modelo de vida. Assim, as variadas opções do comportamento humano tornam-se plausíveis numa mesma sociedade. Por consequência, surge o individualismo, que valoriza a autonomia individual em detrimento da hegemonia da comunidade, formando em cada um o status de ‘ser exclusivo’, enfatizado por conceituações pessoais em prejuízo de um comportamento familiar.

A ocorrência de fatores tão diversos faz nascer uma nova personagem social, capaz de estabelecer sua individualidade de maneira evidente, mesmo como participante de um grupo característico como a família. Este fato gera um antagonismo pessoal diante do sentimento de pertença e de autonomia, criando ambientes de proximidade e distanciamento simultâneos, onde a pessoa torna-se distante de quem é próximo e alheio de quem com ela come e dorme. Nesse contexto está a família contemporânea, como instituição reorganizada pelos diversos desafios que a vida moderna impõe.

Além de tudo isto, porém, estão fatores como afetividade e emoção, que tratam sobre quais sejam os últimos anseios da vida humana. Próximos, distantes ou em relacionamentos diversos entre pais, irmãos, padrastos, madrastas, avós e companheiros, os processos de convivência estão sempre dependentes desse fato e por mais que se queira evitar embates que envolvam a alma, como sentido do que somos, a vida sempre nos remete ao mesmo ponto, como numa insistência intensa de nos fazer viver cada vez melhor.

Um ponto importante dessa discussão está além de nossa razão, toca diretamente o coração e se traduz por uma só palavra: amor. A partir disso, nos lembra o apóstolo: “…se não tiver amor, nada serei” , quem sabe nos provocando para o fato de que para se viver, há que se amar e, de maneira mais específica, para se viver em família, há que se promover a prática desse sentimento transformador.

Se, frente aos novos momentos sociais existem desafios que unem pessoas diferentes de baixo de um mesmo teto e, ao mesmo tempo, separa os que são iguais… se a revolução de poder, ciência, sexo, direito e religião nos desestrutura em nossos antigas bases… se nem sempre existem explicações prontas para as novas situações a que somos submetidos… há de se pensar, primeiramente, em temas como respeito, tolerância, persistência e desprendimento, como valores que garantam as ligações da amizade e do bem viver. Se, como pais, filhos, parentes ou agregados, não formos capazes de garantir que o amor complete nossos espaços de diferença, num exercício permanente de quem se deseja próximo, então haveremos de lamentar a tristeza da desesperança e da separação.

Se, de tempos em tempos, for necessário, rever processos, posturas e comportamentos, precisamos saber que isto não poderá ocorrer sem antes garantir o básico da vida, a veia mestra que alimenta nossa capacidade de sonhar e sorrir, a habilidade de amar. Como lembrou o apóstolo, é impossível viver sem amar… é impossível conversar sem amar, entender, ceder, reverter, reviver.

Talvez seja oportuno lembrar a memorável poetisa Cora Coralina:

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar

Que Deus abençoe nossas famílias através de nós e nos abençoe através da possibilidade de amar.

Rev. Nilson.

*ilustração: A família, de Tarsíla do Amaral
Dados do IBGE, em http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/familia.html#anc1 – visitado em 12 de maio de 2009

Sobre a pressa

•Maio 9, 2009 • Deixe um comentário

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Alguém disse que ‘a pressa é inimiga da perfeição’… quem sabe poderíamos dizer que ela tem outras inimigas… a paz, a tranquilidade, a sensibilidade, a harmonia e a felicidade.

A pressa nos leva a ignorar questões significativas da vida, nos impulsionando mais do que precisamos. Na velocidade da pressa, não notamos amizades potenciais, não nos detemos pelos olhares, sorrisos, expressões de afeto… a pressa nos isola de um sem número de momentos especiais, desses que tem a finalidade de adoçar a vida.

Ela quase sempre nos surpreende com preocupações distantes… o amanhã, o depois, o mais tarde, que deveriam ser calmamente aguardados e que se tornam foco de nossa atenção… a pressa, nos faz viver a incrível experiência do transitório, já que tem o poder de nos tirar do agora, que é real, e nos levar para a irrealidade do que ainda não chegou. Assim, não vivemos nem o hoje, nem o amanhã… vivemos, simultaneamente, a esperança do que não temos e a frustração do que está passando sem merecer nosso cuidado.

A pressa rouba de nós a vida.

Quem tem pressa, come cru, não vê a vida passar, não observa integralmente a ternura da pessoa amada, não percebe a evolução dos filhos, não sabe bem como é o nascer e o pôr do sol, não cultiva com atenção as amizades, não se integra totalmente em um grupo, não se alegra por pequenas coisas, não percebe os grandes motivos de estar vivo, não se lança totalmente no propósito de ser feliz, nem se detém… quem tem pressa perde tempo precioso… perde boas oportunidades de crescer, de entender, de aprender, depender e sentir. Pois quem não contempla, não emociona e se emociona, não toca e não é tocado, não passou pela magnífica experiência de olhar a vida frente a frente.

Mas a vida, de certa forma, requer de nós que tenhamos pressa, nos acelerando em suas preocupações e demandas. O cotidiano nos mostra que tempo não é somente dinheiro… tempo é oportunidade, agilidade, astúcia… pois, no imaginário social, quem tem o poder de executar várias tarefas ao mesmo tempo, supostamente, pode mais do que quem só se concentra em uma tarefa… por isso, rapidez ganha agora significado de competência e eficiência… ser rápido remete à inteligência e ao sucesso.

Mesmo parecendo ser impossível viver sem pressa, é necessário repensar a velocidade da vida… encontrar um ritmo que nos equilibre entre a pressa e a lentidão, a satisfação e a ansiedade, o atropelo e a mansidão.

A solução para esta questão parece estar próxima do que o contexto bíblico chama de ‘espera’. Um dos textos que mais nos faz lembrar desta expressão está nos Salmos (Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR – Sl.27.14). A palavra que é traduzida por espera ali, é qavah, que tem origem hebraica e significa aguardar, esperar.

Conjugar estes verbos parece complicado diante de todas as tensões que nos assediam diariamente, mas, aparentemente, necessário para a preservação de nossa saúde física e emocional. Aguardar a concretização das suposições que se formam constantemente dentro de nós, esperar a chegada dos momentos que tanto nos inquietam e, mais que isto, confiar em Deus, em sua justiça, providência e amor, nos momentos em que nos surpreendemos na ansiedade que nos acelera em direção ao amanhã, ao depois e ao que virá, parece bastante salutar.

Esperar pode ser uma boa prevenção contra a pressa, além de nos ajudar a controlar as aflições que tiram nossa paz.

Que o Deus de todo o tempo nos ajude a viver com a serenidade da calma, da espera e da confiança para percebermos que o tempo que temos precisa ser observado, sentido, vivido com a intensidade do que é único, do que passa e não volta, do que vai e não vem.

Rev. Nilson.

Uma vida que vai além

•Maio 2, 2009 • 1 Comentário

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É lamentável, mas, em várias situações, até compreensível, o fato de uma grande parcela da sociedade ser arredia ao ambiente das igrejas. Algumas situações são catastróficas e agridem fortemente a inteligência e o bom senso.

Noutro dia a imprensa noticiou o caso de uma igreja que instalou um ‘ringue’ dentro do salão de cultos, justificando que se tratava de uma estratégia para atingir a juventude. Para a tristeza de quem tem um mínimo de decência em sua espiritualidade, aberrações como estas são cada vez mais visíveis.

Se não bastasse esta confusão toda, existe ainda a questão dos exageros que, além de ofenderem a lógica e a razão, confrontam repetidamente a teologia e a história de muitas instituições sérias. Há muitos eventos que degradam a boa imagem das igrejas do nosso tempo… homilias mal elaboradas, liturgias sem nexo, despreparo e destempero de quem deveria ser símbolo de acolhimento e afetuosidade. Ainda bem que existem exceções… poucas, mas existem.

Por outro lado, vemos a sociedade se lançar no racionalismo, atribuindo valor somente à razão e ao pensamento lógico. Desta maneira as pessoas percorrem caminhos firmados em resultado prático, visíveis e examináveis. A comprovação científica, a constatação e a experiência tornam-se instrumentos para entender e gerir a realidade humana… as pesquisas, os fatos e a demonstração de resultados passam a explicar e a ditar os dramas e sofrimentos da vida.

Existe quem não creia em quase nada pelo fato de não encontrar comprovação… vivendo uma eterna experiência com resultados que são sempre relativos… desprezando tudo o que seja lúdico, emocional, e que envolva algum tipo de sentimento.

Mas a vida humana vai além de tudo isto… de qualquer drama religioso ou institucional… e de qualquer comprovação… viver é experimentar uma realidade inexplicável, incerta, imprecisa e transcendente, algo que não tem receita e não está preso a qualquer convenção, humana ou mística.

Viver é equilibrar sentidos e permitir-se ao metafísico… sem isto, a vida fica fria, rija e pobre. A racionalidade por si só não responde aos dramas que temos em nossa alma, assim como a mística por si só não resolve as questões de nosso corpo.

Mas a fé está longe disso tudo… ela é um evento isento de qualquer explicação… é certeza, quando não existem possibilidades, crença, quando não se vê comprovação, visibilidade, quando não existe luz.

Então, é imprescindível orar, da forma mais espontânea que possa haver, crer, da maneira mais singela, perceber, do jeito mais crédulo… cantar, com o mais profundo sentimento e esperar com a esperança de quem não pode explicar nada.

Para viver bem, precisamos nos libertar das distorções que temos de Deus para nos libertarmos das prisões que criamos para nós mesmos… prisões que nos impedem de exercitarmos livremente nossa religiosidade a fim de encontrarmos um ambiente para Ele dentro de nós.

Que Ele nos ajude a alcançarmos isto.

Rev. Nilson.

Quando nossas portas se fecham

•Abril 24, 2009 • 1 Comentário

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Quando nossas portas se fecham no final do dia, voltamos a ser somente nós mesmos, e mais nada. É nessa hora que refletimos sobre o que vivemos, sobre as pessoas que nos rodeiam e o que representamos. Nestas ocasiões é que os dramas pessoais afloram… as amarguras, mas também é quando nos reencontramos com nossos sonhos e esperanças. Com a porta fechada, podemos nos despir e nos mostrar… sem disfarces e máscaras.

Este ambiente que temos conosco mesmo é muito íntimo, muito pessoal e inatingível pra quem fica atrás da porta… e normalmente nos escondemos de todos ao entrarmos nele.

Assim como nós, as pessoas que convivem conosco também tem esses refúgios, onde as razões que as movem reaparecem… os motivos que as fazem chorar, sorrir e viver. Isto é segredo pra nós, mas quase sempre nos atinge também.

Há quem seja ativo, alegre, forte, fora da porta e triste, frustrado e melancólico quando adentra por ela. Existem problemas familiares, lembranças, traumas, frustrações não públicas… ou solidão, insegurança, angústia, desgosto e até agonia que ficam lá. Existem pessoas que moram sem ninguém, sem ter com quem conviver, conversar, dividir, esperar e quem sofra de dores crônicas como a falta de realização ou de felicidade.

Mesmo que se esconda, ou se tente esconder, o que acontece porta adentro influi no que se passa porta afora, quando, sem motivo aparente, pessoas se insurgem contra outras a procura de uma vingança para suas dores internas… lançando fora frustrações e mazelas.

Por isso, parece complicado conviver sem tentar imaginar o que acontece por trás da porta de quem está ao lado… não com a curiosidade pertinente a nossa humanidade, mas com a sensibilidade de quem procura encontrar uma explicação para as aflições que circulam a convivência.

Precisamos buscar mais que justificativas, precisamos discernir as motivações que corroem um coração sofrido que, mesmo agressivo, é passível de misericórdia e cuidado.

Assim foi que Jesus tratou de seus relacionamentos… perscrutando mais o que havia atrás da porta de cada um do que na aparência crua… entendendo, mais que julgando, sofrendo mais que se ofendendo, andando segundas, terceiras milhas, num oferecimento solidário de consolo e compaixão.

Rev. Nilson.

Um outro carpinteiro

•Abril 22, 2009 • 1 Comentário

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Como se diz por aí, só não nasci na Igreja porque não era dia de culto. Sou o segundo filho de uma família ‘carola’… daqueles tipos ‘crentões’, mesmo. Meu Pai foi Presbítero da Igreja Presbiteriana, onde participava, com minha mãe, do coral da Igreja, que depois se transformou num quarteto. Minha mãe foi ativa também, foi presidente do grupo de mulheres algumas vezes. Como era de esperar, eu segui o mesmo caminho… aos quinze anos, migrei para a Igreja Metodista, onde conheci minha esposa, me casei, batizei os filhos e me tornei pastor – nesta ordem.

Foi na Igreja Metodista de Bandeirantes, no Paraná, que meu avô e minha avó se tornaram evangélicos em 1947 e nunca mais deixaram de ser. Por várias questões, meu avô se tornou Assembleiano – questão de gosto. Varias vezes o acompanhei em sua igreja… na maioria das vezes, íamos a pé… meu avô sempre usava terno e tinha uma grande dedicação pela sua religiosidade. Lembro-me com saudades de suas orações… ele e minha avó tinham por hábito fazer cultos domésticos pela manhã e à noite. Curiosamente, meu avô lia sempre o mesmo texto bíblico… lembro-me bem, era o Salmo 91… “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”. E todas as vezes, ele repetia a mesma oração… aquilo ficava marcado na gente… pela simplicidade e pela devoção… não importava quem estivesse em casa, o culto sempre acontecia… de manhã e à noite.

Existia um profundo significado em ser cristão… tudo girava em torno disso… a vida era, de fato, guiada pelo intenso desejo em praticar a “vontade de Deus”. As pessoas em volta, vizinhos, conhecidos, logo identificavam quem era ‘crente’… o que não era fácil… existia discriminação, diferenciação… mas, em compensação, a sociedade em geral valorizava isto de maneira irônica… ao mesmo tempo em que éramos alvo de chacotas, nos respeitavam pelo testemunho, pela seriedade na moral, nos negócios. A gente era diferente e fazia diferença.

Depois de muitos anos, e já se vão 27 anos sem o meu avô, tento descobrir o que o fazia especial, afinal, foi um homem simples, quase que totalmente sem cultura, com pouquíssima escrita e quase nenhuma leitura… um homem, realmente, simples de espírito. Algumas coisas ainda me fazem mais intrigado… em suas pregações e testemunhos, ele não se cercava de ‘referências’ – várias vezes o vi pregando na igreja – nem sabia o que era contextualização, hermenêutica, exegese… antes, falava de coisas simples, naturais ao povo que ouvia… contava de seu dia a dia, das lições que tirava em seus dramas… falava de histórias vividas por ele, pelos seus pais, conhecidos, irmãos de igreja… sua mensagem era pura, sem erudições, sem frases impactantes, mas tinham tanto efeito… pessoas eram curadas de seus medos, angústias, desespero.

E pensar que nossas histórias – evangelicamente falando – passaram por gente assim… e que a Igreja foi sustentada por eles… cresceu através de suas vidas… marcou seu tempo, fez história. Posso dizer que conheci um pouco do que o apóstolo Paulo chama de “a simplicidade e a pureza de Cristo” (2 Cor. 11.3)… um evangelho sem recortes, sem ‘arte’, sem ‘estratégias’, sem ‘cultura’… que era demonstrado só com a vida, mais nada… e, talvez, por isso mesmo, tocava tantas pessoas… trazendo sentido, esperança, alegria, paz, vontade, pé no chão e, o melhor, salvação!

Olhando para o nosso tempo, que se considera tão evoluído, penso: quem dera tivéssemos o desprendimento de não transformar nossas mensagens em demonstração de conhecimento teórico… contássemos histórias, fatos, acontecimentos, como Cristo, que pudessem ser contados com nossa emoção e espiritualidade… falando mais do que somos e não somente do que lemos… tivéssemos testemunhos ao invés de erudição…

Quem dera tivéssemos a coragem de sermos como foi meu avô… um João simples… um outro carpinteiro, como Jesus… modesto, humilde, como os discípulos de Cristo, e, como eles, anunciador de sua própria experiência, de sua própria alegria… capaz de não se deixar corromper pelo próprio pensamento, como sugeriu o apóstolo no mesmo texto citado.

Rev. Nilson.

Água mole em pedra dura…

•Abril 18, 2009 • 1 Comentário

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Há quem não aceite a estratégia persistente da água que, apesar de ser fraca e sem a rigidez da pedra, tanto insiste em sua intenção que acaba por esculpi-la. Esta imagem, relatada no ditado popular é mais que o retrato da sabedoria simples do povo. A meu ver, a frase, a muito repetida, revela a realidade de quem se depara, em certas situações, com uma única opção, perseverar.

A água, um dos elementos mais nobres da vida, sugere diversas realidades como, o refrigério num dia quente, a possibilidade da limpeza, o relaxamento… de alguma forma, também, pode significar a insegurança, a falta de sustentação… sem dúvida, a água tem a representação da vida, da natureza, do alimento, que é, na maioria das vezes, preparado através dela… e por ela germinam as sementes, surgem os peixes, garante-se a saúde dos animais e, por conseqüência, da humanidade. Apesar disso tudo, a água é leve, maleável, condutível… afinal ela não impõe caminhos, antes se curva às intenções dos rios, dos lagos e mares… a água é generosa… parece não ter grandes metas… deixa-se levar… segue o curso, sem se preocupar aonde chegar.

Talvez, por isso, seja difícil aceitar a afirmação do ditado… que fala de uma água que fura a rocha… que bate e persiste.

As pedras são insensíveis… frias… estáticas, inflexíveis… param e permanecem em sua rigidez, sem temer nada, sem se importar com nada… são imóveis, quase sempre, pesadas, sem ação, sem reação, fortes, difíceis e complexas. Por isso é tão difícil tê-las pelo caminho… pois, diante delas, só mesmo a tolerância, a compreensão, a paciência representada tão gentilmente pela água. Existem algumas possibilidades diante das pedras. Ceder, como a água ou explodir, como a dinamite.

Alegoricamente, somos como estas figuras. Alguns de nós somos frágeis como a água… pacienciosos, calmos, generosos, acessíveis, pacíficos… outros, como as pedras, densos, fechados, difíceis e inflexíveis. E o drama do rio, que se constitui de água e pedras, se repete na vida… e o que fazer diante das ‘pedras’ do caminho?

Há quem opte pela estratégia da água… dando volta, flexibilizando, sendo maleável… mas, também, existe que prefira agir como a dinamite… explodindo, abrindo caminho a qualquer custo.

Mas o ditado, nos dá uma terceira via… a da água teimosa, que, apesar de ser tolerante, gentil e frágil, sabe insistir, com paciência e persistência em seus ideais. Este caminho, que trabalha com tempo, temperança, resignação e tática, parece dar os melhores resultados. A beleza de muitos rios está nas esculturas feitas nas pedras, pelas águas que, pouco a pouco, transformam ranhuras em arte.

As estalactites, por exemplo, são formações rochosas sedimentares que se originam no teto de uma gruta ou caverna, crescendo para baixo, em direção ao chão da gruta ou caverna, pela deposição de carbonato de cálcio arrastado pela água que goteja do teto, com formas tubulares ou cônicas, enquanto que as Estalagmites são formações que crescem a partir do chão
.
Lembremos também dos grandes ‘canyons’, que são gargantas rochosas imensas produzidas pela ação erosiva das águas… são nada mais do que maravilhas da natureza produzidas pela paciência e determinação de muitas águas.

Assim, podemos concluir que a estratégia teimosa da “água mole em pedra dura…”, é menos dolorosa e mais artística, menos violenta e mais bonita, além de ter a grande virtude de ser generosa, harmoniosa.

Não é fácil conviver com as pontas cortantes das pedras… mas, talvez, se tivermos a perseverança e a disposição da água, poderemos gerar ambientes mais agradáveis e construir, uns nos outros, belas obras de arte.

Rev. Nilson.

14 de Abril… aniversário da Márcia…

•Abril 14, 2009 • 6 Comentários

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Da pessoa que amamos, existe uma maciez na pele, um tom de cabelo, uma expressão dos olhos… uma cor, um timbre e um encanto que só a gente vê…

Dela, não vemos defeitos, só características… não registramos amarguras, exageros… tudo se equilibra com um toque de tolerância.

Essa pessoa que amamos é sempre única, e sempre mais que qualquer outra… mesmo que seja pequena ou simples… porque é nossa, é parte, complemento…

O que vemos nela é mais do que ela é, pois a aparência pura não consegue abranger os muitos significados que a pessoa que amamos tem pra gente… mais que tudo, é quem amamos, é quem queremos… quem completa a gente e faz a gente ser como é.

Rev. Nilson.

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O julgamento de Cristo

•Abril 8, 2009 • 2 Comentários

a-sentenca-de-cristoJesus não foi aborrecido somente no momento da cruz, durante todo o seu ministério foi perseguido por duas classes sociais/religiosas de seu tempo: os escribas e os fariseus. Os escribas eram homens que copiavam e interpretavam a lei de Moisés (Ed 7.6) além de criarem um sistema complicado de ensinamentos conhecido como “a tradição dos ANCIÃOS” (Mt 15.2-9). Eles eram chamados também de “doutores da lei” (Lc 5.17). Os fariseus eram membros de um dos principais grupos religiosos dos judeus e seguiam rigorosamente a Lei de Moisés, as tradições e os costumes dos antepassados (Mt 23.25-28) além de não se darem com os SADUCEUS, um grupo formado por pessoas ricas e sacerdotes que se uniram com eles para combater Jesus e os seus seguidores (Mt 16.1).

Se Jesus teve inimigos declarados, podemos dizer que se chamavam escribas e fariseus. Eles foram os grandes responsáveis pelo clima de condenação que Jesus viveu nas últimas semanas de sua vida terrena.

Mas, qual foi o pecado dessa gente, afinal, eles não eram religiosos, não conheciam como ninguém a Lei de Moisés? Seu pecado foi julgar mais que ouvir, criticar mais que crer. O julgamento é algo tão perigoso, que, oficialmente, somente o/a juiz/a tem esta função. Lamentavelmente, o povo, por sua própria conta e risco, tomou para si esta tarefa… julgando e sentenciando pessoas, segmentos e pensamentos. Um agravante no julgamento popular é que não existe qualificação, o/a juiz/a, ao menos, gasta anos se preparando para julgar e, quando o faz, estuda, cautelosa e profundamente o caso – ao menos é isto que se espera.

Os escribas e fariseus julgavam sempre! Cada frase… mesmo que ela não estivesse completa… cada ação, mesmo que fosse bem intencionada. Viviam espremidos no meio do povo, como aves de rapina, prontos para anotar tudo, mesmo que fosse de maneira distorcida. Os evangelhos estão repletos de exemplos desta perseguição implacável… vemos em vários textos as ações maldosas desta gente contra Jesus: Eles julgavam (Mt 9:3), desafiavam (Mt 12:38), satirizavam (Mt 27:41), censuravam (Mc 2:6), tramavam (Mc 14:1), reclamavam (Lc 5:30) procuravam acusação (Lc 6:7), buscavam confundir (Lc 11:53), queriam matá-lo (Lc 19:47), queriam prendê-lo (Lc 20:19), acusavam (Lc 23:10) e inflamavam o povo (At 6:12 ).

Jesus foi sentenciado e crucificado… foi torturado, judiado ao extremo… quem assinou sua sentença? Não sabemos quem assinou, mas, certamente, quem elaborou foram aqueles religiosos que não tiveram boa vontade de ouvir e ver o que Ele pregava e fazia.

Por certo, devemos refletir sobre o sacrifício de Cristo nesta Páscoa mas, também, pensar sobre sua condenação… o contexto em que ela foi arquitetada… de onde partiu, por quais motivos e interesses e perceber as condenações que também arquitetamos em nossa religiosidade… avaliando, se não repetimos, em nossos redutos de ‘santidade’, o mesmo equívoco dos escribas e fariseus.

Rev. Nilson.

Salmo 23 (pelo dia do pastor/a)

•Abril 6, 2009 • Deixe um comentário

(Paráfrase de uma ovelha)

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Preciso de um pastor…
que tenha consciência de seu chamado, vocação e se aceite como tal…
que me ajude, me cuide, me alimente, por que eu tenho fome, carências.
Alguém que me proporcione um lugar de descanso,
que me dê uma casa, um abrigo, que me acolha…
e me guie em direção a mim mesmo, para reencontrar minha alma, emoção e espiritualidade…
um guia para os caminhos da vida… de forma que eu saiba honrar o nome de Deus onde estiver.
Então poderei enfrentar os caminhos perigosos sem medo…
pois saberei que tenho um apoio, uma segurança… uma presença que me consola e me incentiva.
Preciso de alguém que me traga alegria nas horas de aperto…
que me ajude a pensar coisas boas…
ter sonhos, planos.
Preciso de alguém que me queira bem,
que seja bondoso,
e me faça saber disto sempre,
para que este sentimento me envolva em todo o tempo,
e eu queira estar na Casa de Deus todos os dias da minha vida.

Rev. Nilson.

G7,G8,G12,G20… os grupos de salvação.

•Abril 2, 2009 • 2 Comentários

g20 Este 02 de abril foi marcado por um evento de muita importância política. Trata-se da reunião do G20. O grupo, formado pelo Banco Central e ministros da economia de 19 países mais a União Européia, foi criado para o debate entre países emergentes e desenvolvidos acerca de temas como o desenvolvimento econômico e sistema financeiro. O primeiro encontro aconteceu em 1999, em Montreal, no Canadá e é constituído por Alemanha, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, EUA, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, Turquia e União Européia.

Entre os assuntos tratados, os mais importantes são: Desacordo sobre os remédios para a recessão mundial, Reforço da regulação do setor financeiro, Luta contra paraísos fiscais, Remuneração de banqueiros, Aumento dos fundos do FMI para ajudar os países mais frágeis, Rejeição a medidas protecionistas, Questão do câmbio. Há, porém, um dado ainda mais expressivo: este “grupo de amigos ricos”, ou em enriquecimento, irá disponibilizar para o mundo, cerca de 5 trilhões de dólares na tentativa de tampar o enorme rombo da crise econômica instalada. Apesar da injeção financeira, ainda não se sabe como e onde estes recursos serão aplicados.

Este cenário todo, pintado em Londres, com direito a jantar dos “Chefes de Estado” com a rainha (Elizabeth 2ª), nos lembra, de maneira mais próxima, do que vivemos em nosso dia a dia… de nossas crises pessoais, familiares, profissionais… dos conflitos que são normalmente engenhados pelas mesmas ambições, vaidades e intenções dos/as que ajudaram na derrocada do setor financeiro mundial. Cá, como lá, existem fragilidades humanas, pecados, erros, mal intento, e fracasso. Normalmente, a casa edificada sobre a areia, não subsiste por muito tempo e, seja no Brasil ou em Londres, na bolsa de Chicago ou na intimidade do nosso lar, existem dias que a depressão e a tragédia, de alguma forma, chegam para nos visitar.

Normalmente, quando as infelicidades aparecem, surge a idéia de se formar um grupo, um grupo salvador… para estes momentos, é comum convidar pessoas teoricamente mais sábias, ou mais experientes, ou ainda, pessoas que ‘tenham intenções mais puras’, que sejam ‘mais fiéis’, que possuam mais ‘conhecimento’ ou ‘que tenham mais proximidade com o divino’. Se o ambiente for financeiro, político, os grupos são como este, reunido em Londres, se familiar, chamam-se tios/as, pais, mães, avós… se isto acontece na igreja, levantam-se os grupos de conselheiros, de oração, de liderança.

Assim caminha a humanidade… formando grupo aqui, grupo ali… hora depositando esperança aqui, hora, depositando lá, à busca do que lhe dê uma direção mais convincente, ou conveniente.

Contrario a isto, a Bíblia não nos passa a intenção dos grupos salvadores… não da maneira que se vê… os grupos bíblicos são formados na dinâmica de uma naturalidade calma… onde todos/as tem a mesma condição, a mesma obrigação e direito. Acredito que quando Jesus se retira, não o faz para formar uma reunião particular, antes, Ele se reúne com Deus para buscar a inspiração que o faça ainda mais servo, mais participativo, mais comum e natural. O grupo dos discípulos, a meu ver, não é um grupo fechado, restrito, antes, é um movimento de pessoas que aceitaram uma proposta nova… uma boa nova… e a lição deles, não é a de que se deve formar redutos de sabedoria, de conhecimento, de reflexão ou de santidade, antes, espalhar a santidade bíblica, a sabedoria, o conhecimento e a reflexão crítica no cotidiano das pessoas. Dados históricos nos levam a crer que os/as seguidores/as de Cristo foram bem mais do que os doze citados nos escritos bíblicos… o número 12 é mais uma representação simbólica, com significado importante para a cultura da época, do que um fato. Possivelmente os/as discípulos/as formaram uma pequena multidão.

Não há como viver sem grupos… eles se formam naturalmente, segundo os interesses e preferências, mas, não se pode restringir a este ou a aquele grupo a salvação, ou a esperança dela, ou certeza, ou devoção. O grupo de Deus deve simbolizar a igualdade de potencialidades em meio à diversidade que resulte em obrigações… a responsabilidade de todos/as para a construção de uma salvação que atinja a todos/as.

Espero chegar o dia em que as significações de esperança, salvação ou devoção, não se restrinjam a este ou àquele grupo… mas que elas se firmem em coisas naturais, pequenas e pessoais… e que se construa, no esforço comum, no envolvimento de todos/as, na seriedade e na honestidade mútua um ambiente de esperança, capaz de salvar o mundo dele mesmo.

Rev. Nilson