Sobre a pressa

pressa
Alguém disse que ‘a pressa é inimiga da perfeição’… quem sabe poderíamos dizer que ela tem outras inimigas… a paz, a tranquilidade, a sensibilidade, a harmonia e a felicidade.

A pressa nos leva a ignorar questões significativas da vida, nos impulsionando mais do que precisamos. Na velocidade da pressa, não notamos amizades potenciais, não nos detemos pelos olhares, sorrisos, expressões de afeto… a pressa nos isola de um sem número de momentos especiais, desses que tem a finalidade de adoçar a vida.

Ela quase sempre nos surpreende com preocupações distantes… o amanhã, o depois, o mais tarde, que deveriam ser calmamente aguardados e que se tornam foco de nossa atenção… a pressa, nos faz viver a incrível experiência do transitório, já que tem o poder de nos tirar do agora, que é real, e nos levar para a irrealidade do que ainda não chegou. Assim, não vivemos nem o hoje, nem o amanhã… vivemos, simultaneamente, a esperança do que não temos e a frustração do que está passando sem merecer nosso cuidado.

A pressa rouba de nós a vida.

Quem tem pressa, come cru, não vê a vida passar, não observa integralmente a ternura da pessoa amada, não percebe a evolução dos filhos, não sabe bem como é o nascer e o pôr do sol, não cultiva com atenção as amizades, não se integra totalmente em um grupo, não se alegra por pequenas coisas, não percebe os grandes motivos de estar vivo, não se lança totalmente no propósito de ser feliz, nem se detém… quem tem pressa perde tempo precioso… perde boas oportunidades de crescer, de entender, de aprender, depender e sentir. Pois quem não contempla, não emociona e se emociona, não toca e não é tocado, não passou pela magnífica experiência de olhar a vida frente a frente.

Mas a vida, de certa forma, requer de nós que tenhamos pressa, nos acelerando em suas preocupações e demandas. O cotidiano nos mostra que tempo não é somente dinheiro… tempo é oportunidade, agilidade, astúcia… pois, no imaginário social, quem tem o poder de executar várias tarefas ao mesmo tempo, supostamente, pode mais do que quem só se concentra em uma tarefa… por isso, rapidez ganha agora significado de competência e eficiência… ser rápido remete à inteligência e ao sucesso.

Mesmo parecendo ser impossível viver sem pressa, é necessário repensar a velocidade da vida… encontrar um ritmo que nos equilibre entre a pressa e a lentidão, a satisfação e a ansiedade, o atropelo e a mansidão.

A solução para esta questão parece estar próxima do que o contexto bíblico chama de ‘espera’. Um dos textos que mais nos faz lembrar desta expressão está nos Salmos (Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR – Sl.27.14). A palavra que é traduzida por espera ali, é qavah, que tem origem hebraica e significa aguardar, esperar.

Conjugar estes verbos parece complicado diante de todas as tensões que nos assediam diariamente, mas, aparentemente, necessário para a preservação de nossa saúde física e emocional. Aguardar a concretização das suposições que se formam constantemente dentro de nós, esperar a chegada dos momentos que tanto nos inquietam e, mais que isto, confiar em Deus, em sua justiça, providência e amor, nos momentos em que nos surpreendemos na ansiedade que nos acelera em direção ao amanhã, ao depois e ao que virá, parece bastante salutar.

Esperar pode ser uma boa prevenção contra a pressa, além de nos ajudar a controlar as aflições que tiram nossa paz.

Que o Deus de todo o tempo nos ajude a viver com a serenidade da calma, da espera e da confiança para percebermos que o tempo que temos precisa ser observado, sentido, vivido com a intensidade do que é único, do que passa e não volta, do que vai e não vem.

Rev. Nilson.

~ por revnilsonjr em Maio 9, 2009.

Deixe uma resposta