Um outro carpinteiro

Como se diz por aí, só não nasci na Igreja porque não era dia de culto. Sou o segundo filho de uma família ‘carola’… daqueles tipos ‘crentões’, mesmo. Meu Pai foi Presbítero da Igreja Presbiteriana, onde participava, com minha mãe, do coral da Igreja, que depois se transformou num quarteto. Minha mãe foi ativa também, foi presidente do grupo de mulheres algumas vezes. Como era de esperar, eu segui o mesmo caminho… aos quinze anos, migrei para a Igreja Metodista, onde conheci minha esposa, me casei, batizei os filhos e me tornei pastor – nesta ordem.
Foi na Igreja Metodista de Bandeirantes, no Paraná, que meu avô e minha avó se tornaram evangélicos em 1947 e nunca mais deixaram de ser. Por várias questões, meu avô se tornou Assembleiano – questão de gosto. Varias vezes o acompanhei em sua igreja… na maioria das vezes, íamos a pé… meu avô sempre usava terno e tinha uma grande dedicação pela sua religiosidade. Lembro-me com saudades de suas orações… ele e minha avó tinham por hábito fazer cultos domésticos pela manhã e à noite. Curiosamente, meu avô lia sempre o mesmo texto bíblico… lembro-me bem, era o Salmo 91… “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”. E todas as vezes, ele repetia a mesma oração… aquilo ficava marcado na gente… pela simplicidade e pela devoção… não importava quem estivesse em casa, o culto sempre acontecia… de manhã e à noite.
Existia um profundo significado em ser cristão… tudo girava em torno disso… a vida era, de fato, guiada pelo intenso desejo em praticar a “vontade de Deus”. As pessoas em volta, vizinhos, conhecidos, logo identificavam quem era ‘crente’… o que não era fácil… existia discriminação, diferenciação… mas, em compensação, a sociedade em geral valorizava isto de maneira irônica… ao mesmo tempo em que éramos alvo de chacotas, nos respeitavam pelo testemunho, pela seriedade na moral, nos negócios. A gente era diferente e fazia diferença.
Depois de muitos anos, e já se vão 27 anos sem o meu avô, tento descobrir o que o fazia especial, afinal, foi um homem simples, quase que totalmente sem cultura, com pouquíssima escrita e quase nenhuma leitura… um homem, realmente, simples de espírito. Algumas coisas ainda me fazem mais intrigado… em suas pregações e testemunhos, ele não se cercava de ‘referências’ – várias vezes o vi pregando na igreja – nem sabia o que era contextualização, hermenêutica, exegese… antes, falava de coisas simples, naturais ao povo que ouvia… contava de seu dia a dia, das lições que tirava em seus dramas… falava de histórias vividas por ele, pelos seus pais, conhecidos, irmãos de igreja… sua mensagem era pura, sem erudições, sem frases impactantes, mas tinham tanto efeito… pessoas eram curadas de seus medos, angústias, desespero.
E pensar que nossas histórias – evangelicamente falando – passaram por gente assim… e que a Igreja foi sustentada por eles… cresceu através de suas vidas… marcou seu tempo, fez história. Posso dizer que conheci um pouco do que o apóstolo Paulo chama de “a simplicidade e a pureza de Cristo” (2 Cor. 11.3)… um evangelho sem recortes, sem ‘arte’, sem ‘estratégias’, sem ‘cultura’… que era demonstrado só com a vida, mais nada… e, talvez, por isso mesmo, tocava tantas pessoas… trazendo sentido, esperança, alegria, paz, vontade, pé no chão e, o melhor, salvação!
Olhando para o nosso tempo, que se considera tão evoluído, penso: quem dera tivéssemos o desprendimento de não transformar nossas mensagens em demonstração de conhecimento teórico… contássemos histórias, fatos, acontecimentos, como Cristo, que pudessem ser contados com nossa emoção e espiritualidade… falando mais do que somos e não somente do que lemos… tivéssemos testemunhos ao invés de erudição…
Quem dera tivéssemos a coragem de sermos como foi meu avô… um João simples… um outro carpinteiro, como Jesus… modesto, humilde, como os discípulos de Cristo, e, como eles, anunciador de sua própria experiência, de sua própria alegria… capaz de não se deixar corromper pelo próprio pensamento, como sugeriu o apóstolo no mesmo texto citado.
Rev. Nilson.

Existe um pensador Libanês (Khalil Gibran) que disse que “A simplicidade é o último degrau da sabedoria.”, e eu concordo plenamente com ele! acho que precisamos muito mais de bom testemunho cristão e não desses intelectualismos que não geram nada prático! Quem dera cada um fosse um pouco João, um pouco de José Carlos, que faziam os seus atos falarem mais (muito mais). Agora eu senti saudade do meu vô! Muito lindo o que você escreveu ! =)