Tirando o pó das sandálias

Confesso que fico surpreso com as palavras de Cristo em Lucas 9.5 (“… se forem mal recebidos, saiam logo daquela cidade. E na saída sacudam o pó das suas sandálias, como sinal de protesto contra aquela gente” – NTLH). Me pergunto qual foi, exatamente a intenção Dele quando instruiu os discípulos para agir assim.

Indignação a quem não ouvisse a mensagem? Seria um “lavar as mãos”? Isentar-se de qualquer responsabilidade?

Prefiro ver nessa recomendação algo mais leve. Quero crer que, de alguma forma, sacudir o pó das sandálias, tenha a ver com a questão da tolerância.

Não é fácil falar, ensinar, e não ser ouvido/a! Como é deprimente ter a experiência de sentir a indiferença daqueles/as a quem dedicamos cuidado e atenção… mas acontece! E, pode ser que o desafio disso esteja em compreender esta atitude como desatenção ou despreparo.

Não é questão de sentir-se superior/a, mas de entender que, nem sempre, quem recebe alguma coisa está preparado para acolher bem a novidade.

Certa vez, trabalhando em Extensão Rural no interior do Paraná, entrei numa propriedade onde nunca estivera antes… os donos dela eram imigrantes Poloneses e arredios a qualquer presença estranha… mesmo assim arrisquei. Entrei com o carro vagarosamente pelo carreador, mas fui logo surpreendido por um senhor com uma foice na mão… era o filho do dono – ele tinha pouco mais de cinqüenta anos, apesar disso era solteiro e vivia só ele e seu pai com alguma coisa perto dos setenta.

Pois bem: ele me perguntou com um sotaque bem carregado quem eu era e o que queria… me identifiquei e, commuito custo, consegui me aproximar da casa e conversar com o pai… que apesar de me receber, demonstrou-se muito receoso e relutante a qualquer proposta de ajuda que eu pudesse oferecer.

Não tive muito sucesso com aqueles Poloneses… eles passaram a falar comigo quando me encontravam na cidade, mas sempre “pé atrás”. Nunca consegui ganhar a confiança deles totalmente!

Existe quem não tenha como nos receber, não porque não queira, mas porque não entende, ou não confia. E precisamos respeitar isto! Nossa aparência é diversa para quem nos vê!

Cada um tem uma imagem diferente do que somos, mesmo que sejamos pessoas sinceras e únicas de caráter, mas as leituras pessoais levam tempo… dias, meses e, até anos! Isto é complexo, como é complexa a diversidade cultural, étnica, social e religiosa!

Por isso, em certos momentos, não como desaforo ou represália, mas por tolerância e amor, é preciso tirar o pó das sandálias! Dar um tempo, dar espaço, respeitar!

Imagine quanta dor Jesus sentiu na cruz. Ele fora preso, espancado, xingado, ofendido, traído, abandonado! Tinha todo o direito de se voltar ao “mundo” e dizer: “vocês são ignorantes, não entenderam nada do que falei, do que fiz. São uns ingratos, não têm alcance!”. Mas apesar de ter essa prerrogativa, preferiu tirar o pó das sandálias… não com arrogância, mas com longanimidade e amor, pedindo o perdão de Deus dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23.34).

Num mundo tão cheio de direitos… que nos dão tanto poder… poder processar, direito de resposta, poder de “puxar o tapete”, direito de se negar… somos desafiados/as a tolerar, andar a segunda milha, tirando o pó das sandálias!

Tenho pra mim que esta é uma lição preciosa para o cristianismo contemporâneo… porque agindo assim, não pecamos por não falar, não oferecer a Graça e Deus, mas sim por não agimos mal com quem agiu mal conosco!

De certa forma, bater esse pó é deixar a semente no chão, na esperança de que um dia nasça… é registrar que nossa tarefa foi cumprida, e não há mais nada a fazer. Quem dera tivéssemos sempre a sensibilidade de tirar o pó das sandálias no momento certo… antes de sermos postos fora com sandália, pó e tudo!

Quantas vezes passamos da medida… insistindo com quem não tem condição de absorver mais do que aquilo… e quanta confusão acontece por isso!

Para tirar o pó na hora certa é preciso ter segurança do que se quer e do que se tem – potenciais humanos também têm seus limites. Mais que isto, é preciso ter humildade de entender que não é na hora, mas com o tempo que as sementes nascem… que as plantas crescem… que as flores surgem… que os frutos se formam e amadurecem.

Não podemos gastar sandália à toa! É preciso, de vez em quando, renová-la, retirar-lhe a poeira, para que seja útil de novo… mesmo que não seja no mesmo chão, no mesmo pó!

Creio que esta lição nunca foi tão necessária… porque mais que na insistência, o crescimento e o resultado acontecem através da tolerância e do tempo.

Que Deus nos abençoe… e nos faça respeitar, esperar, caminhar!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:40 am  Comments (1)  

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  1. Parabéns, ótimo seu artigo


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