
Tive um amigo, Gilmar Cardoso, com quem trabalhei numa cooperativa agrícola, muito ligado à natureza. Por isto, passou a cultivar vários tipos de plantas, frutíferas e ornamentais no quintal de sua casa. O lugar se tornou aos poucos um belo espaço verde.
Lembro-me do quanto queria ter pássaros em casa e, apesar da tentação de comprar filhotes para formar um viveiro, descobriu que poderia atraí-los naturalmente com algumas técnicas. Percebeu que se disponibilizasse comida, viriam completar seu recanto. Foi o que fez. Desenvolveu um comedouro de madeira com uma espécie de bandeja sobre uma estaca de aproximadamente dois metros de altura. Ali colocava pedaços de frutas e pequenas porções de grãos.
O resultado foi ver chegar, pouco a pouco, bem-te-vis, pardais, pombas, andorinhas, além de pássaros mais raros, que eu nem saberia lembrar os nomes. O Gilmar transformou seu quintal num equilibrado jardim com a magnífica presença de pássaros que, nas manhãs e tardes, presenteavam a todos com uma bela sinfonia.
Aquela experiência me faz, depois de tantos anos, pensar nos pássaros criados nos quintais das casas. Aves que não têm a mesma sorte daquelas que conheci na casa de meu amigo. Cuidadas, alimentadas, reproduzidas e preservadas, mas sem a liberdade daquelas outras, cantando e embelezando, engaioladas, a troco de um bocado de alpiste.
O que mais me intriga é pensar que, de outras formas, a fé, que se organiza e se institucionaliza cada vez mais, funciona na vida de muita gente como as gaiolas dos pássaros. Gaiolas que podem até ter a intenção de preservar, cuidar, mas, mesmo assim, tiram a liberdade e a espontaneidade. Gaiola que livra do perigo das ruas, das agressões e até da morte, mas ao mesmo tempo, tira o brilho do vôo livre e natural.
Sinto o dilema dos pássaros na realidade da religião, que se por um lado protege, por outro escraviza, se por um lado livra da morte, por outro, priva da vida.
O que será melhor?
Por ironia, uma amiga de minha esposa, ganhou uma gaiola e, não admitindo a possibilidade de criar pássaros presos, resolveu colocá-la como enfeite, sem as portas, num dos cantos de seu quintal. Mesmo assim, disponibilizou frutas e alimentos para aliviar a fome dos passarinhos que por lá voavam e, para sua surpresa, teve a gaiola cheia com muitos deles. Noutro dia contou isto à minha esposa e disse que quando as pessoas a visitam ficam impressionadas com os belos pássaros que possui na gaiola e, ainda mais, quando descobrem que, na verdade, eles estão soltos, podendo entrar e sair quando bem entenderem.
Quem dera pudéssemos reelaborar a prática da religião de forma que não se construísse no coração das pessoas esta encruzilhada que leva ou para a liberdade mortal ou para a clausura. Quem dera tivéssemos a confiança de que o que cremos pode libertar sem a necessidade de engaiolar em conceitos, costumes e interesses.
Quem dera.
Rev. Nilson.









