Gaiolas sem portas

•fevereiro 7, 2010 • Deixe um comentário


Tive um amigo, Gilmar Cardoso, com quem trabalhei numa cooperativa agrícola, muito ligado à natureza. Por isto, passou a cultivar vários tipos de plantas, frutíferas e ornamentais no quintal de sua casa. O lugar se tornou aos poucos um belo espaço verde.

Lembro-me do quanto queria ter pássaros em casa e, apesar da tentação de comprar filhotes para formar um viveiro, descobriu que poderia atraí-los naturalmente com algumas técnicas. Percebeu que se disponibilizasse comida, viriam completar seu recanto. Foi o que fez. Desenvolveu um comedouro de madeira com uma espécie de bandeja sobre uma estaca de aproximadamente dois metros de altura. Ali colocava pedaços de frutas e pequenas porções de grãos.

O resultado foi ver chegar, pouco a pouco, bem-te-vis, pardais, pombas, andorinhas, além de pássaros mais raros, que eu nem saberia lembrar os nomes. O Gilmar transformou seu quintal num equilibrado jardim com a magnífica presença de pássaros que, nas manhãs e tardes, presenteavam a todos com uma bela sinfonia.

Aquela experiência me faz, depois de tantos anos, pensar nos pássaros criados nos quintais das casas. Aves que não têm a mesma sorte daquelas que conheci na casa de meu amigo. Cuidadas, alimentadas, reproduzidas e preservadas, mas sem a liberdade daquelas outras, cantando e embelezando, engaioladas, a troco de um bocado de alpiste.

O que mais me intriga é pensar que, de outras formas, a fé, que se organiza e se institucionaliza cada vez mais, funciona na vida de muita gente como as gaiolas dos pássaros. Gaiolas que podem até ter a intenção de preservar, cuidar, mas, mesmo assim, tiram a liberdade e a espontaneidade. Gaiola que livra do perigo das ruas, das agressões e até da morte, mas ao mesmo tempo, tira o brilho do vôo livre e natural.

Sinto o dilema dos pássaros na realidade da religião, que se por um lado protege, por outro escraviza, se por um lado livra da morte, por outro, priva da vida.

O que será melhor?

Por ironia, uma amiga de minha esposa, ganhou uma gaiola e, não admitindo a possibilidade de criar pássaros presos, resolveu colocá-la como enfeite, sem as portas, num dos cantos de seu quintal. Mesmo assim, disponibilizou frutas e alimentos para aliviar a fome dos passarinhos que por lá voavam e, para sua surpresa, teve a gaiola cheia com muitos deles. Noutro dia contou isto à minha esposa e disse que quando as pessoas a visitam ficam impressionadas com os belos pássaros que possui na gaiola e, ainda mais, quando descobrem que, na verdade, eles estão soltos, podendo entrar e sair quando bem entenderem.

Quem dera pudéssemos reelaborar a prática da religião de forma que não se construísse no coração das pessoas esta encruzilhada que leva ou para a liberdade mortal ou para a clausura. Quem dera tivéssemos a confiança de que o que cremos pode libertar sem a necessidade de engaiolar em conceitos, costumes e interesses.

Quem dera.

Rev. Nilson.

Questão de equilíbrio

•janeiro 24, 2010 • Deixe um comentário

Existem situações que confrontam nossa ética de maneira direta. Normalmente estes mal-estares são mais agudos quando envolvem pessoas próximas por afinidade, por parentesco ou mesmo por ofício. A angústia é evidente nestes casos porque quando existe emoção, proximidade ou interesses, somos tentados fortemente pela tolerância e, quase sempre, com extensão ampliada.

Então o que fazer se aparentemente no final da reta da tolerância parece estar a conivência? Se, no encanto da amizade, da proximidade e do companheirismo existe também o risco iminente e constante da omissão, da cumplicidade e do erro?

Talvez esteja nesse entorno o limiar da coerência cristã que aponta diretamente para estes dois pontos, evocando a tolerância e condenando a conivência e a omissão.

Tolerar, segundo o Aurélio, significa uma tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas e, nas relações sociais até mesmo a isenção de normas, de regras, remetendo mesmo a licenças, isenções e dispensa de obrigações.

Por outro lado, conivência denota complacência, transigência ou cumplicidade para com falta ou infração de outrem e, mesmo, uma forma de cumplicidade que consiste em, patente ou dissimuladamente, abster-se de prevenir, impedir, atalhar ou denunciar um delito, de cuja premeditação se tinha conhecimento.

Estes dois lados são de extrema importância para quem almeje seguir os passos de Jesus Cristo… se por um lado é necessário tolerar dificuldades e limitações, por outro, é preciso instar contra a injustiça, a mentira e a dissimulação. Se é preciso ser amigo para louvar os acertos, é necessário também, ser irmão para confrontar o que não está certo e não condiz com a conduta cristã.

O problema é quando se perde a dimensão, o espaço e a linha divisora desses dois temas. Aí, então, quem confronta, passa a ser inimigo e quem tolera, amigo. Daí nascem os desacertos mais graves da religião, como a falta de correção, a omissão, a complacência e a essência da fé perde o brilho, ofuscada pelo interesse político e pessoal.

Quem dera fôssemos maduros para lidar com os contrapesos da fé e da ética e não tivéssemos receio em equilibrar os relacionamentos, religiosidades coerências Quem dera!

Rev. Nilson

Eis que estou convosco todos os dias…

•janeiro 21, 2010 • Deixe um comentário

Dona Elza se foi e a impressão que fica é que se vai mais um exemplar de uma gente rara, que aprendeu a confiar em Deus de maneira absoluta. É impossível falar dela sem lembrar do “Seu” Geraldo, com quem dividiu a vida, os filhos e a confiança em Deus.

Em tempos de uma fé condicionada, relativa e dependente de sinais, prodígios e prosperidade, esse casal deixa o exemplo de quem confiou o tempo todo e, como no casamento, souberam permanecer firmes na riqueza e na pobreza, na saúde ou na doença.

Viveram dias de paz e dias de amargura do mesmo jeito: Trabalhando, sorrindo e confiando em Deus. Nada lhes foi mais importante… tanto que foi uma das mais expressivas heranças deixadas aos filhos, filhas, noras, genros, netos, netas e bisnetos.

O Deus deles não era particular, mas de todos e todas… vizinhos, amigos, conhecidos. Eles, realmente, tinham uma coisa maravilhosa na vida que não cabia só neles… era necessário repartir… por isso foram evangelizadores por essência.

Numa visita ao hospital, disse a ela que deveria confiar em Deus e tranqüilizar-se. Ainda não sabia do câncer que lhe importunava. Disse estar curiosa sobre o que a afligia. Li pra ela o versículo 20 de Mateus 28: “E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século” lembrando-a das últimas palavras de John Wesley, já no leito de morte: “O melhor de tudo é que Deus está conosco”. Com isto, consolei-a dizendo que Deus estaria consigo agora como estivera antes e que isto não mudaria independentemente da enfermidade. Isto a fez sorrir e concluir que, de fato, pouco importava a gravidade da doença se o melhor de tudo é que Deus continuava ao seu lado.

Hoje, na lembrança da D. Elza e do “Seu” Geraldo, fica o exemplo de uma fé transcendente, que sabe manter-se em qualquer tempo e situação. Fica o sorriso constante… mesmo na hora da tragédia, do lamento… fica a sabedoria de conhecer as coisas simples e modestas… e ser feliz com elas. Fica a consciência de que a vida verdadeira, plena e palpável, não é nada mais que isto.

Agora, nos conforta saber que estão junto de Deus, do mesmo Deus que esteve com eles todos os dias em que pudemos tê-los conosco.

Rev. Nilson.

Interesse pela vida ou vida pelo interesse?

•dezembro 24, 2009 • Deixe um comentário


O caso do menino Sean Goldman, filho de um americano e uma brasileira que depois de separar-se do marido casou-se novamente, falecendo no parto do segundo filho, deixando uma disputa complicada entre pai natural, pai adotivo e avós, é, no mínimo, um fato emocionante.

Todos nós brasileiros temos sofrido com o desenrolar desse vai e vem da justiça e, mais trágico ainda, com o veredicto do Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes que devolve ao pai americano a guarda do menino, sem a chance de ser ouvida a própria criança sobre seu futuro.

Uma explicação para esta decisão, talvez, esteja na declaração do avô brasileiro de Sean, ao dizer que “Um ministro do Supremo cassa o direito de uma criança de se manifestar e faz um acordo econômico com essa criança. Essa criança vai pra lá, não fala nada, fica caladinha e a gente assina”, afirmando que os interesses econômicos do Brasil falaram mais alto que as vontades do seu neto”. Estas palavras se fundamentam no fato de que em resposta à decisão da “justiça” brasileira, o Senado Americano, segundo informações da noticias.bol.uol.com.br, aprovou, na mesma noite da decisão sobre o menino, uma lei comercial que prorroga benefícios alfandegários de bilhões de dólares para algumas exportações brasileiras.

Isto, na verdade, só reforça a lógica que temos presenciado nos diversos espaços da contemporaneidade, que, ao invés de demonstrar interesse pela vida, utiliza-se de pessoas, histórias, carreiras, famílias, para viabilizar interesses.

Assim, em nome de poder econômico e político, negocia-se, decide-se e revoga-se, sem pensar em fatores contextuais, emocionais e até mesmo espirituais.

Esta é a realidade que vivemos… este é o ambiente onde Deus não se faz presente. Esta é a fraqueza humana… negociar, até mesmo com vidas, em nome do poder, do status e do ganho.

Rev. Nilson.

bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.

•dezembro 20, 2009 • Deixe um comentário

Esta semana foi palco de um dos maiores fracassos políticos do mundo moderno. No intuito de chegar a um acordo sobre medidas que viabilizassem a tranquilidade climática mundial, o encontro de Copenhague (Dinamarca) não passou de um jogo de interesses e frustrações. A indignação do presidente Lula foi tanta que o fez retirar-se de maneira abrupta e inesperada. A mensagem política do governo brasileiro classificou o encontro como um “redundante fracasso” (www.notícias.uol.com.br de 18.12).

Mas o acontecido de Copenhague, na verdade, reflete a dinâmica da sociedade contemporânea, onde interesses e conformidades tornam-se mais importantes do que necessidades, onde quem tem condição de mudar o mundo, os ambientes e situações, se deixa levar por acordos e políticas.

Infelizmente, acredito, não há muita esperança para a reversão desse quadro… já que o espírito protestante contra as injustiças e mazelas dificilmente vence o espírito da comodidade, da permissividade e da conveniência.

Parabéns ao presidente Lula pela indignação! Parabéns a todos e todas que ainda sentem-se como ele, agredidos e afrontados por poderes passivos que não mudam o que precisariam mudar.

Rev. Nilson.

O natal é doce!

•dezembro 17, 2009 • Deixe um comentário

Quando eu era menino, nossos natais aconteciam na casa de minha avó paterna. As festas lá, apesar de singelas, eram bem saborosas. Minha avó não tinha muitos dotes culinários, não dos modernos, mas lembro-me de pratos tradicionais como a bela macarronada e dos assados. Eu apreciava de maneira especial uns biscoitinhos que ela fazia. Pareciam com pequenas tranças… além deles, tínhamos os pães caseiros e os doces feitos em fogão de lenha.

Mais tarde, com meus avós já idosos, as celebrações aconteciam em casa mesmo. Lembro-me que meus pais tiveram um hotel e, normalmente nos finais de ano a grande clientela ia embora, mas ainda assim havia festa. Meus pais organizavam um almoço grande, pra quem fosse passar o natal conosco. Neste dia, ao invés de nos servirmos no salão do restaurante, era posta uma grande mesa na conzinha, bem espaçosa. Lá se reuniam nossa família, funcionários, hospedes… 30, 40 pessoas, para celebrar o natal. Era um momento fraterno. Havia muita conversa e brincadeiras. Um presente pra alma.

Outra lembrança especial que trago é a da casa dos meus sogros. Mesmo ainda menino, não sendo casado e não fazendo parte, oficialmente, da família, era um apreciador inveterado de vários sabores… a macarronada, os frangos, pernis, farofas e assados. Havia também panetones, além dos doces… o manjar branco, o doce de coco, as rabanadas, o creme chinês, as frutas secas… e por aí vai. Meu sogro sempre dirigia um momento devocional. Líamos a bíblia, o ouvíamos, orávamos. Às vezes tínhamos o “parente secreto” e, depois da troca de presentes, vinha a tão esperada Ceia de Natal!

Lembro-me também dos natais na igreja. Depois da celebração, irmãos e irmãs se reuniam em jantares que tinham um sabor muito peculiar: o da união. Aqueles instantes eram tão expressivos quanto as músicas e orações, pois simbolizavam uma família comemorando um aniversário especial.

Depois descobri que a gostosura do natal não estava somente nas guloseimas que comíamos. Passei a ver que a doçura deste momento era maior do que o doce da mesa. Senti quanto é doce o sentimento de alegria que, inexplicavelmente, atinge as pessoas… pobres e ricos… nos enfeites das casas, das ruas, nas cantatas, celebrações ou no simples gesto de enviar mensagens e cartões. Como é doce reencontrar amigos, telefonar para os que estão distantes, relembrar antigas canções que simbolizam de maneira tão bela este momento.

Então, o natal passou a ter um novo significado, um novo sabor… o sabor da simplicidade e da solidariedade… a mesma simplicidade do Jesus menino, num berço improvisado, cercado de animais pobres e esquecidos depois do dia de trabalho. Simples como seus pais, perplexos diante da majestade e da ação de Deus. Ao mesmo tempo, solidário, humano, fraterno, como foram solidários os reis que viajaram errantes para encontrar o Deus-criança e cercá-lo de cuidados e proteção.

Hoje sei que o natal pode ser doce até pra quem não tem um doce na mesa, pra quem não tem um teto onde passar a noite, quem não tem uma roupa bonita para festejar a data, não tem saúde para desfrutar a paz. Principalmente se acontecer partilha, oferecimento, como a que Deus nos fez com Jesus… principalmente se o doce significado da salvação em Cristo tiver sentido em cada coração.

Agora considero o natal uma data, realmente, doce. Onde a doçura e o sabor da vida podem ser sentidos com intensidade especial. Basta ter sensibilidade para torná-lo mais saboroso, mais agradável e doce, onde estivermos.

Que a doçura de Deus seja sobre todos nós e que tenhamos um delicioso natal!

Rev. Nilson.

Amor às víboras?

•dezembro 12, 2009 • Deixe um comentário

A vida de Jesus realmente não foi fácil. Não era sem motivo. Jesus incomodou mesmo alguns seguimentos de sua sociedade. Sem dúvida, os escribas e os fariseus foram alvos de sua presença, afinal, esses homens importunaram como ninguém, a paz do mestre.

Dizer que Jesus foi indelicado com eles, pode ser um desrespeito ao nosso Senhor, porém, podemos estar certos que ele não os poupou de palavras duras. Jesus foi claro, prático e severo e não temeu as consequências que, certamente, resultaram em sua morte.

Em Mateus 23 temos idéia de como Jesus se arriscou. Ali, os fariseus, são classificados de hipócritas, insensatos, cegos (certamente no sentido de limitação), e mais adiante, o pior, ao chamá-los de “serpentes, raças de víboras!”.

Diante dessa imagem, penso sobre os posicionamentos que temos ante os desafios da igreja contemporânea, uma igreja institucionalizada, resultante de um mundo capitalista, secularizado e moderno. De um tempo onde pessoas representam dinheiro e interesses e os postos são preenchidos por estes mesmos valores.

Não é que não as tenhamos, mas as víboras atuais são diferentes das do tempo de Jesus. Elas pastam entre as ovelhas, se aproveitam do seu pasto, engordam às custas de seus pastores e, assim, disfarçando bem, são tratadas como tais.

Estas novas víboras quase sempre são reconhecidas por todos… mostram em seus hábitos, em seu comportamento, que estão ali somente para se servir, para se aproveitar, contudo, para a surpresa, imagino que principalmente de Jesus, não há quem as confronte. São aduladas, afinal, galgaram direitos, amizades, poderes, e, por isso, continuam tão tranquilas. Ralhar com víboras e hipócritas parece ser coisa do passado… hoje em dia é preciso pensar em seu ‘emocional’, em sua estrutura pessoal, em seus transtornos, mesmo que simbolizem atrapalho para as ovelhas, mesmo que se saiba e se tenha convicção de que alguém precisa fazer alguma coisa contra elas, tomar uma providência. Ainda assim, opta-se em adulá-las, acarinhá-las e tratá-las como ovelhas.

Sinceramente, chego a pensar que Jesus Cristo, o nosso Senhor, não subsistiria por muito tempo num ministério pastoral institucionalizado. Certamente, ele seria ‘descontinuado’… talvez, sob a alegação de mal tratar as víboras que lhe viessem pela frente.

Vivemos num tempo onde se abusa da tolerância, e se utiliza de um amor político e conveniente, e por isso, chega-se a complacência. Vão governos, vem governos e as víboras continuam bem tratadas, gordas e intactas, sem quem as faça ceder de seu conforto. Parece até que existe uma SOCIEDADE PROTETORA DAS VÍBORAS, que se responsabiliza em protegê-las das poucas ameaças que possam surgir.

Fica, para nós, Igreja de Cristo, o exemplo do Cristo da Igreja, que não teve dúvidas de que o mal tem apenas duas soluções: transformação, e para isto existe a Graça de Deus, ou ser lançado fora, para o bem da própria Igreja.

Que tenhamos coragem e atitude diante das víboras. Que tenhamos em nós, de fato, um Jesus Cristo transformador e avesso à hipocrisia e à peçonha de todas as formas de víboras.

E que Deus nos dê Graça e Paz!

Rev. Nilson.

Do que somos…

•dezembro 10, 2009 • Deixe um comentário

Do que somos, existe um pouco de muita coisa…
De história, existem as lembranças, os acontecimentos, as ocasiões…
De sentimento, o carinho, a ternura, a paz, a emoção, alegrias, tristezas, frustrações e realizações.
De sentido, a razão, o conhecimento, a vocação e as opções.

Mas existe também um algo estranho no que somos… um vazio e um preenchimento, uma espera e uma lembrança, um pouco de nós e um pouco do outro…

Do que somos, não estamos sós… estamos sempre juntos, mesmo na distância, na ausência… somos sempre companheiros, mesmo num caminho de solidão…

Com o que somos, dividimos nossos sonhos, falamos sozinhos… conversamos com aquilo e com quem queremos bem… repartimos problemas, perguntamos, ouvimos…

As lembranças sempre nos respondem e nos orientam… elas vivem conosco, sempre, mesmo que não haja mais presente, mesmo que não haja mais olhares, abraços… porque não somos sós… somos sempre nós e quem amamos, mesmo que quem amamos viva somente em nossa lembrança.

Nilson.

O meu eu de hoje marcou um encontro com o meu eu de ontem…

•dezembro 3, 2009 • Deixe um comentário

O meu eu de hoje marcou um encontro com o meu eu de ontem…
Já era tarde, o sol se punha… o eu de ontem chegou primeiro, ansioso, buscando reconhecer o eu de hoje…
Não demorou muito logo se encontraram… reconheceram-se mutuamente…
O eu de ontem olhou meio desconfiado, com um misto de surpreza e admiração…
O eu de hoje se emocionou mais… propôs, de pronto, um abraço, que foi longo, saudoso, terno, amoroso… irrigado de lágrimas e lembranças… num misto de cuidado e carinho.
O eu de ontem queria saber como era a vida do eu de hoje… quais tinham sido as realizações, as conquistas… elogiou o eu de hoje por algumas coisas, mas se entristeceu quando soube das frustrações e decepções que vivera.
O eu de hoje parecia não querer dizer nada… respondeu tudo com muita paciência… estava contemplativo, buscando na aparência do eu de ontem o que já nem lhe era mais familiar…
Apesar de ser mais eufórico, o eu de ontem não dizia as coisas com coerência… parecia divagar… falava de seus sonhos, desejos… contava de suas lutas… era esfuziante… dinâmico… parecia lutar contra o tempo… que lhe parecia lento.
O eu de hoje tentou detê-lo algumas vezes, mas depois, sorriu e deixou que falasse…
O encontro seria rápido… tinha um tempo estabelecido… os dois pareciam preocupados com isto, afinal, não se sabia se haveria outra oportunidade como esta…
O eu de hoje perguntou sobre a família… se havia possibilidade de revê-la naquela fase, ao que, de pronto, o eu de ontem acenou positivamente…
As esposas, de ontem e de hoje, foram vistas de longe… o eu de hoje lembrou-se da adolescência, da juventude, revendo o rosto de menina em sua amada… lembrou-se de como fora frágil insegura, retraída…
O eu de ontem também ficou feliz com a cena… admirou-se em ver sua esposa tão bela como antes e com a mesma leveza de quando menina… viu nela os mesmos olhos e reconheceu sua ternura e carinho… percebeu-a mais madura, serena, forte e ainda mais charmosa…
Ambos viram também os filhos… as crianças brincavam felizes junto da mãe… suas vozes, roupinhas e gestos fizeram chorar o eu de hoje… lembrou-se do dia do nascimento de ambos… de quando começaram a andar, das noites mal dormidas, fraldas, brinquedos, risadas…
De um outro lado, a moça e o rapaz também estavam junto da mãe… como antes, sorriam e brincavam com inteligência aguçada, um com o outro… e se revezavam nos abraços e beijos na mãe… percebeu o quanto tinham se tornado bonitos, simpáticos… ela, perto dos vinte e ele perto dos quinze… ele já tinha até barba!
Era momento de despedida… os olhares se voltaram novamente entre o meu eu de ontem e o meu eu de hoje…
Houve silêncio… as palavras, de repente, ficaram pobres, pequenas para expressar aquele instante… então, o eu de hoje, novamente, abraçou o eu de ontem… e, rapidamente, tentou falar-lhe sobre como controlar a ansiedade, como se portar diante de momentos difíceis… como ter fé e como seria importante acreditar em seus sonhos…
Mas foi o eu de ontem que falou por último… emocionando ainda mais o de hoje… ao afirmar que todo o esforço valeria a pena diante do que vira… pois agora estava certo de que o futuro lhe preparava outros estágios de felicidade ainda mais nobres e profundos… e que estava feliz em ter visto a cena de seu amanhã…
Já era noite… as esposas e filhos aguardavam para prosseguir a vida… não havia mais tempo…
Os dois, cheios de saudade e emoção se despediram… esperançosos por um reencontro em algum lugar do futuro.

Nilson.

Eu vi uma bíblia do Corinthians!

•outubro 7, 2009 • 14 Comentários

corinthians

Foi essa frase que ouvi de um menininho com aproximadamente quatro anos, dentro de uma livraria, outro dia desses.

Ele gritou alto, por isso, chamou minha atenção. Quando aquelas palavras ecoaram perto de mim, fiquei apavorado pensando onde foi que chegamos em nossa religiosidade… lembrei de ter visto pela televisão, várias propagandas de ‘bíblias específicas’, do tipo: ‘bíblia da mulher de Deus’; ‘bíblia do homem de Deus’; ‘bíblia para assuntos financeiros’; ‘bíblia para sucesso empresarial’; ‘bíblia para guerra espiritual’. Lembrei também que uma vez vi uma bíblia que trazia na capa o rosto de uma ‘artista gospel’. Tudo isso me amargurou muito.

Mas bíblia de time! Isto foi demais. Imaginei: agora todos os times começarão a publicar suas bíblias… e a gente vai ter confusão dentro das igrejas por conta de um ver a bíblia do outro.

Mas para meu alívio, quando o pai do menino correu para ver a tal bíblia – o que acompanhei de longe, atentamente – era uma agenda do Corinthians. Ufa! Que susto.

Mas aquele ‘incidente’ não pode ficar impune, sem uma reflexão maior… mesmo porque existem, realmente, bíblias específicas, de assuntos variados, com notas de roda pé, com interpretações teológicas próprias para esse ou aquele seguimento religioso.

A bíblia não é mais única. Agora ela tem nome, cor denominacional… tornou-se propriedade de um e de outro… tornou-se diversa. E numa análise mais aprofundada, podemos concluir que, assim como a bíblia, Deus também tem sido apropriado, amoldado segundo as diversas tendências da religião moderna. Existe ‘Deus’ pra todo gosto, forma e vontade.

Fico assustado quando me deparo com pregadores que dizem o que Deus vai fazer hoje, amanhã, daqui uma semana… e mais apavorado ainda quando ouço alguém atribuir ao Poderoso alguma coisa que foi ele mesmo quem fez… são sinais do tempo? Acho que são… sinais que mostram bem o mundo que vivemos… um mundo que trabalha na lógica do reducionismo, restringindo as coisas ao seu pequenino mundo, fazendo tudo girar em volta de seu ego e colocando-se como centro de todas as atenções.

Não tenho nada contra os times de futebol, mas temo que um dia desses, realmente, veremos por aí uma ‘bíblia do Corinthians’, outra do Palmeiras, do São Paulo, e por aí vai. Porque as pessoas têm desenvolvido ao longo do tempo, uma necessidade urgente em se sentirem valorizadas em sua identidade, transformando tudo que é seu em algo que seja melhor que o do outro, exterminando, pouco a pouco, com a lógica cristã, que orbita, sempre, no entorno do comum, do igual.

Imagino como ficará o mundo quando esse novo cristianismo, enfim, tirar do texto sagrado a afirmação de Efésios 4: “… há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” Certamente, viveremos o caos completo da humanidade.

Quem sabe ainda não haja tempo de revertermos esse mal e não esteja em nós a capacidade de olharmos para as pessoas que estão em volta na compreensão de que somos iguais em muitas coisas e que nossas igualdades são um bom motivo para nos unirmos em esperanças, sonhos e ações… transformando o mundo em que vivemos – empresa, família, grupo de amigos – num lugar possível para a felicidade!

Rev. Nilson.