Ser mãe…

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Flertar… admirar, enamorar… aproximar, acreditar, confiar… comprometer-se… compromissar, pactuar… casar… fecundar.  Transformar-se… emocionar-se… perceber a vida… ter mal estar… enjôos, dores, incômodos… perceber-se modificar… a silhueta… a forma… admirar… temer… chorar… sorrir.

Perder o sono… sonhar… esperar, esperar, esperar. Os primeiros movimentos, sentir mãozinhas, pesinhos, cotovelinhos, joelhinhos… o ventre mexer… sonhar. Preparar roupinhas, lençoisinhos, travesseirinhos, caminhas, moveisinhos, quartinhos… comprar, comprar, comprar… esperar, esperar, esperar. Escolher cores… vestidinhos ou terninhos? Sonhar!

Temer… chorar… sofrer… confiar, pedir, orar… gritar… conceber. Sorrir… chorar, sorrir, sonhar… beijar, afagar, admirar… proteger. Cuidar, amamentar, trocar, afagar, consolar, acarinhar, vestir, banhar, aquecer, refrescar, alimentar, medicar… perder o sono… preocupar. Ver sentar… cuidar… ver engatinhar… cuidar… ver cair, machucar, sujar… ver sorrir, ver brincar, se apoiar, se firmar… ver andar.

Ensinar comer, comportar, respeitar, cantar, crer. Ver crescer, ver correr… ver falar. Cuidar… roupas, sapatos, alimentação, instrução, saúde, aparência, higiene,  modos, vocabulário, caráter,  personalidade, seriedade, responsabilidade, sonho, perspectiva, profissão. Brigas de escola, relacionamento com professores, notas, deveres de casa, tempo no computador… obrigações.

Orientar. Vida espiritual, emocional, física, acadêmica… amizades, lugares, horários, opções de estudo… impor limites… aconselhar. Sofrer. Com indecisões, ansiedade, com os atritos, com os relacionamentos, com a competitividade, injustiças, decepções, com os erros, com os fracassos… discutir… chorar… temer… perder o sono… perder a paz… pedir a Deus, amar.

Acostumar-se com a independência… com a distância… ver sair, entrar, correr, se soltar… andar sozinho, pensar os próprios pensamentos, optar, escolher. Perceber caminhos, direções,  horizontes… temer.

Consolar, festejar, chorar, sorrir… permanecer ao lado, apoiar, amar.

Ver partir… se desligar… chorar… temer.

Esperar pela volta, abraçar, agradar, dengar, beijar… ver partir… chorar.

Esperar telefonemas… ouvir dificuldades, vitórias… vibrar, sofrer, lembrar, temer, sonhar, orar… providenciar recursos,  providenciar  viagens…  decidir… providenciar livros, roupas, materiais… gastar… economizar… abdicar, sacrificar, torcer, sonhar. Ver formar. Roupas, viagens, convites, parentes, amigos, festas, celebrações… alegria… tristeza… lembrança… emoção.

Ver flertar, ver admirar, enamorar… acreditar, confiar… comprometer-se… compromissar, pactuar… casar… fecundar. Conhecer outros rostos… brincadeiras, novos filhos, netos, novas paixões, novos amores… novas preocupações. Voltar aos mesmos dramas, às mesmas dores, aflições, alegrias… rever antigas cenas… reviver momentos eternos.

Mostrar caminhos, prevenir, alertar, ajudar, dividir, emprestar, doar. Instruir, aconselhar.Ter saudades… lembranças… ternura… gratidão. Comprar presentes… telefonar… mandar cartões, e-mails… agradar. Amar, dedicar, oferecer, sonhar, acarinhar, proteger, querer, perceber, discernir… Ser mãe!

Rev. Nilson

Publicado em: às maio 12, 2012 em 11:20 pm  Comentários (1)  

O poder que emana do povo

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A maneira moderna de distinguir uma pessoa como “de Deus”, está no reconhecimento de que ela detém “poder”. Equívoco ou não, a sociedade religiosa institui ou destitui seus “escolhidos” por esse critério. O poder espiritual é reconhecido de várias maneiras: curas físicas, exorcismo de espíritos, reconhecimento sacerdotal e, atualmente, sucesso financeiro. Ele nasce de forma espontânea no interior de comunidades eclesiais, pela eloquência, por comprometimento ou proximidade e apoio às lideranças. Mas o reconhecimento de “mediação” da ação divina pode gerar certo grau de “vaidade espiritual”, e, tanto o “poder” como a vaidade, são sentimentos terríveis para a alma humana, seja na vida secular, seja na espiritual.

Dificilmente, quem se relaciona com o “poder” admite separar-se dele. Quem experimenta o sabor do louvor e da ovação corre o risco de perder a auto-crítica e deixar-se enganar pela soberba. Para manter o status é preciso exercício político. Um bom sorriso, palavras afáveis que alimentem o ego das pessoas, são sempre bem-vindas. Disso, às negociações, às concessões, ao favorecimento. Disso, a manutenção de privilégios e a preservação de apoiadores. Quem toca o poder, seja ele pequeno ou grande, informal ou institucional, partidário ou social, religioso ou secular, não continuará sendo o mesmo. Há de se ter muita clareza e crítica para não se embrenhar pelo “canto da sereia”.

Um dos equívocos da religião moderna é ignorar o perigo do poder e considerar-se isenta de seus encantos. Poder é poder, e não há ser-humano capaz de resistir à tentação de, em alguma situação, de alguma maneira, por algum momento, considerar-se um deus. A ação de Deus não anula a humanidade das pessoas, mesmo quando instrumento de algum favor divino, o coração humano persiste humano. Prosseguem as dores, os dramas, mazelas, dúvidas, tristezas, alegrias, medos, anseios, invejas, ciúmes e interesses. A grande surpresa da Graça de Deus é a de nos amar humanos como somos a ponto de nos usar para a transformação do mundo.

Mas a maioria das pessoas não pensa assim. Infelizmente, os sinais de Deus na sociedade moderna ganham valor de status pessoal. A benção é deslocada na medida em que se atribui ao sacerdote o poder, a escolha e a decisão sobre as questões do céu e da Terra. Isto embaça a pessoa no grave erro de endeusar o que é comum e santificar o que é humano. Por isso as multidões validam, aprovam, endossam e financiam as ações e o progresso dos novos “profetas”. Enriquecem suas empresas, favorecem seus projetos, caminham, cegamente, na direção de interesses que nem são seus. Divinizam suas palavras e pagam, com sacrifício, pelo engano de seus corações aflitos, carentes de atenção, cuidado, sucesso e reconhecimento. Confundem Deus com sinais, gente com santidade, dinheiro com crença, fazendo surgir a fé comercial, o mercado da religião e os empresários de Deus.

O drama do poder não é novo, nem a alienação e a falta de discernimento, nem mesmo a comercialização de Deus. Estes equívocos parecem acompanhar a trajetória humana e religiosa. Mas é preciso, de alguma maneira, realocar significados, reorganizar valores e buscar a inspiração de Cristo. Para Ele, gente era gente, vendilhão era vendilhão, sem afago, sem aprovação, e a crítica, o protesto e a reprovação, sua paga, para que o poder de Deus não se confundisse com o poder humano, que, ao contrário do poder dos céus, só é capaz porque tem patrocínio, voto, apoio, espectadores e aplausos.

 Rev. Nilson

Publicado em: às maio 7, 2012 em 1:40 pm  Deixe um comentário  

Medo de assombração

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Quando criança fui um ser muito assustado. Tinha medo de muita coisa e me amedrontava por quase nada. Tinha medo da minha mãe quando olhava brava, de um jeito que fazia a gente tremer por dentro. Não gostava de dormir no escuro, não gostava de andar sozinho, muito menos à noite. Assustava que só, por sombra, por bicho, barulho. Quase tudo era motivo de apavorar, como que numa espreita viesse me pegar. Uma vez, de maldade, meus primos que brincavam com uma foto dada na escola do famoso Tiradentes, me assustaram com a cara feia do barbudo ilustre. Sem dó e sem vergonha, gritei até que viessem me socorrer, mãe, pai, tio, tia. Foi um fuzuê.

Quando cresci, fui perdendo o medo. Aprendi a andar no escuro, a não gostar de luz na hora do sono, encarei noite sem lua, e até algum enguiço de moleque adolescente. Perdi o medo de tudo. Viajei sozinho, fui pra terra estranha, e não lembro de nada que me fizesse temer.

Mas agora, quando já grande, adulto, maduro e de filho criado, dei pra ter medo de novo e, pasmem, medo de gente! Mesmo depois de pegar a malícia da alma, de saber discernir a bondade e reconhecer bem de longe a maldade, peguei cisma de gente criada, dessas que aparecem na luz, no sol a pino. Peguei medo de quem olha pra tudo, menos pros olhos, de quem não para pra nada, nem pra conversa sem graça, pra minuto de prosa, medo de quem ri muito e fala pouco e, quando fala não diz nada, que aproveita, que diferencie, que comprometa. Medo de quem concorda com tudo, de quem bate nos ombros, abraça bem forte, de quem obedece a tudo e não discorda de nada. Cismei com quem é bom demais, ou se julga, e desmerece a gente só com o olhar. Medo de gente que se vê muito certa, muito honesta, muito leal, muito franca, muito boa. Peguei medo de gente que só tem sucesso, que não erra nunca, que só vai pra frente e só faz os outros sorrir.

Na verdade, acho que meu medo tem algum fundamento. E até que sei bem o porquê desse medo todo, é que, pra mim, gente assim não existe, e não é gente que nada, é fantasma, assombração! Porque gente que é mesmo, é sempre um balanço, um meio, um equilíbrio. Num é por inteiro sempre certa, nem sempre errada, nem boa, nem ruim, nem sempre terra, nem sempre céu. Gente que é gente é misto de fracasso e acerto, insistência e constância… e não conta histórias só de festa, também conta temores, erros, receios, e não se empobrece com isso, nem enriquece, permanece natural, mortal, carnal. Tem dor, tem dó, tem sede, tem sangue, sofre, chora, sente, confessa, arrepende, perdoa, magoa, emburra… é gente!

Por isso, tenho medo de quem se sente deus, se sente mais, melhor, maior. Porque esse tipo de vida não existe aqui, na terra da gente, só no céu, só no plano de Deus, do inexplicável, do transcendente. E quando a gente se depara com quem não é daqui, não é normal ou pensa, a gente tem medo, porque gente assim só existe pra dar medo, pra ficar longe, pra tomar cuidado, pra assustar a natureza de gente que é gente, humana e pó, como eu.

Nilson.

 

Publicado em: às abril 27, 2012 em 1:35 pm  Deixe um comentário  

GABRIEL

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(aniversário do Gabriel)

Como diria o Chico, “quando nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar”… com a diferença de que ele já tinha nome e não tinha cara de fome… rsss…

Sua calma sempre o fez melhor do que se pode esperar de uma criança comum… sem se preocupar com prodígios e destaques, se fez tranquilo, mesmo nas situações mais tensas e tristes… sua paz transcende o tempo em que todos vivem e o faz viajar por outros tantos que a naturalidade nem entende… gosta de contar histórias, desvendar mistérios, descobrir novidades… seu mundo é só seu, é intenso, é profundo, é suficiente…

Gosta das minúcias, dos detalhes e do que nem percebemos… é desse lugar que ele nos dá informações dos pensadores, filósofos, da ciência, da história, dos dramas da vida e das incoerências das pessoas… soube, já tão pequeno, compreender o que as torna grandes, importantes e plenas… aprendeu a desvendar olhares, sabe discernir valores, pensa grande, pensa longe, pensa muito e procura entender a vida.

Faz das aflições do pai, coisas bobas, banais… faz do coração da mãe um mar de sonhos, encantos e chamegos…

Faz a alma de todos que o rodeiam ser plena… faz da calma, um lugar seguro, da paz uma morada boa, da rotina, um perguntar sem fim, da vida, uma leve caminhada que encanta e apaixona quem se dispõe a percebê-la…

Nilson

Publicado em: às abril 17, 2012 em 11:46 am  Comentários (2)  

“14 de Abril”

(aniversário da Márcia)

Reconhecer o amor da vida da gente pelo carinho, admiração ou mesmo pela paixão é muito bom, mas o melhor sentimento de todos é quando se pode olhar o passado e o presente, as histórias, tristezas e alegrias e vislumbrá-lo eterno, inexplicável e transcendente, a ponto de não ser demonstrado por nada que possa ser cantado, falado ou escrito…

Nilson

Publicado em: às abril 13, 2012 em 7:38 pm  Comentários (1)  

Quem salvará as cabras?

Publicado em: às abril 11, 2012 em 1:12 am  Deixe um comentário  

J E S U S

Quando se fala em “evangelho”, é preciso lembrar que existem vários evangelhos. Há o evangelho real, vivenciado por Jesus e seus discípulos, há o que foi contato de família a família depois de sua morte e, finalmente, há o descrito no texto canônico, considerado como “o evangelho”, escrito décadas após sua ressurreição. Também é necessário perceber entre estes textos posteriores, os do apóstolo Paulo, que sistematizaram o ensinamento cristão enfatizando a gratuidade e a liberdade como símbolos máximos do cristianismo. Estas considerações nos permitem admitir a existência de um Jesus mais real, despido de lentes, interpretações e interesses que, certamente, formam o Cristo contemporâneo, limitado pelo relato histórico e pelo institucionalismo.

Jesus foi pobre, filho de uma família humilde, pertencente a uma casta menor da sociedade palestina de seu tempo. Seu ministério surgiu de forma independente. Participou dos dramas palpáveis de seu povo, convivendo, desde cedo, com as inseguranças e incertezas da opressão política romana. Isto o fez olhar com atenção para as pessoas normais da sociedade, os lavradores, serviçais, mulheres, crianças, que naquele tempo nem eram consideradas. Neste ambiente que Cristo se forjou, no contato direto com a necessidade de gente comum e discriminada. Desta forma, entendeu a dureza de ser povo e o equivoco gerado pelo poder. Jesus não foi pastor de templo, nem escreveu um tratado teológico, tampouco desenvolveu teorias ou reflexões filosóficas e, possivelmente, não leu os grandes teóricos de seu tempo ou frequentou uma escola clássica, que o transformasse em erudito. Ao contrário, Jesus se dedicou aos problemas comuns e sérios, como fome, dor, dependência, discriminação, pobreza e angústia, mas isso não o levou para longe da Igreja. Os relatos o mostram dentro das Sinagogas, falando das escrituras, das doutrinas, mas a ênfase de sua pregação não se limitou àquele espaço, antes disso, procurou de muitas maneiras, mostrar que se a religião não olhar para o mundo como objeto de seu serviço, não se envolver, se misturar nele e requerer para si seus problemas, dificilmente chegará a ser o sal que dá sabor e a luz que esclarece.

Jesus não foi reconhecido pela Igreja de seu tempo e, possivelmente, não o seria também pela atual. Antes de adequar-se aos formatos legais da religião, Jesus a confrontou. Questionou a postura do clero ao condenar a que sacrifício submetia o povo, questionou o comércio no ambiente da Igreja a ponto de chicotear pessoas e destruir seus pertences, denunciou suas injustiças ao relatar a insensibilidade dos homens da religião na parábola do bom samaritano.

Jesus foi traído, denunciado, preso, torturado, condenado pelos políticos, pela religião e pelo povo, possivelmente, porque não se adequou, porque questionou, porque não se acomodou diante das incoerências e desajustes que viu. Ironicamente, Ele é a referência máxima de uma das maiores crenças do mundo que, mesmo sendo tão expressiva, rica e influente, não tem sido capaz de transformá-lo e aproximá-lo do ideal cristão. Talvez, por isso mesmo, seja imprescindível resgatar o Cristo das ruas, do povo, que, absurdamente, continua desassistido, desamparado, sacrificado e, novamente, repensar a fé que, de muitas maneiras, ainda “mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados” (Lc. 13.35).

Rev. Nilson

Publicado em: às abril 6, 2012 em 2:29 pm  Deixe um comentário  

Pelos números os conhecereis

Há muito tempo os números fascinam a Igreja. Através deles ela se mostra, se impõe ou se prostra. Não qualificam a fé, mas demonstram quantos são seus adeptos e o que isto pode acrescentar, além de expressar poder financeiro, de mobilização e persuasão. Os números fascinam tanto porque mensuram o domínio ou a rejeição, a dependência ou a liberdade, a prosperidade ou o fracasso. Neles se concentram muitas atenções, em especial, quando a Igreja precisa decidir. Por isso o êxtase diante de sua força e a preocupação ante seu juízo.

As instituições religiosas se tornaram empresas e a fé sua mercadoria. Há nelas um contar sem fim. As ofertas, as pessoas, os percentuais de crescimento. Os números são preocupações permanentes. Existem metas, alvos, relatórios, análises que sinalizam o andamento da religião moderna e é através deles que se contam bênçãos e sucessos. Os sermões buscam exemplos numéricos para persuadir corações aflitos, enquanto as multidões procuram, cada vez com maior interesse, resultados práticos na fé.

A Igreja moderna se entregou incondicionalmente aos números. Além de seu relacionamento público com eles, há também o trato interno, pois, deles provém escolhas, “consagrações”, que elevam os “escolhidos” por votos, contados por mãos humanas. Em processos eleitorais, são necessários para decidir sobre a percentagem de favoráveis, de apoiadores e opositores. Há ainda o número de participantes de plenárias, há número de indicações e quantidade de pessoas para comissões, há número de votos válidos, há número de votos inválidos, há número para deflagrar ganhadores e perdedores. São os números que apontam o êxito da Igreja moderna, se são muitos, demonstram bênçãos, se são poucos, fracasso, descrença, condenação. Eles aprovam e desaprovam seus sacerdotes, os ascende e os depõe. Da mesma forma, por eles se avaliam seus membros, pela frequência, pela contribuição, pela prosperidade financeira. Anunciam maldições e deflagram salvação. No contexto da religiosidade contemporânea, seria possível parafrasear as palavras Cristo (Mt 7.16) dizendo: “Pelos números os conhecereis”! É assim que se concebe a religião da atualidade, contada e recontada por cifras, gráficos, demonstrativos, análises. Tudo é exato, contabilizado. Às vezes, os números parecem falar mais nos Templos que o próprio Deus.

Mas isso não é de hoje. Os números sempre embebedaram o coração da religião. O Antigo testamento já deflagra o dilema de Davi, quando rei, preocupado em quantificar, através de um censo, o tamanho de seu exército (2 Samuel 24). O que estava em jogo era a ambição humana, ele precisava mensurar sua capacidade de guerra para reafirmar sua força, seu mando e estabilidade. Mostrar o quanto podia, significava atrair aliados e impressionar inimigos. Ter muitos apoiadores simbolizava “estar certo”, ter direitos, ter a palavra final.

Confiar em Deus, em Sua providência, parece pouco para a Igreja contemporânea. Os números transmitem mais segurança, mais certeza. Nem sempre uma fé que é ensinada e contada em números pode ser confrontada por dúvidas, incertezas e tragédias. A fé que pode ser contabilizada é bem mais simples, fácil e confortável. Infelizmente, a tentação de Davi parece ter se apoderado da Igreja atual, fazendo-a refém de uma fé utilitarista, numérica e monetária. A exemplo do rei que afrontou a vontade de Deus, a Igreja colherá os resultados de sua iniquidade, só espero que não seja a de ouvir do próprio Deus a terrível afirmação feita nos evangelhos: “apartai-vos de mim pois eu não vos conheço” (MT 7.23).

Rev. Nilson

Publicado em: às março 26, 2012 em 12:33 pm  Deixe um comentário  

É preciso cobrir os espelhos…

Gosto dos dias de tempestade…

Gosto do balançar das árvores, do som do vento e da força das chuvas…

Desde sempre, me fascina o clarão dos raios e som dos trovões…

Lembro-me de brincar entre as raízes de grandes árvores caídas no pátio da escola…e de juntar pedrinhas de gelo que logo se derretiam…

Da janela de meu quarto, via o agitar das pessoas abrigando-se nas marquises ou lutando com seus guarda-chuvas que viravam do avesso…

As cortinas das casas se fechavam e os espelhos eram cobertos…

Aprendi que é melhor não desdenhar dos pequenos chuviscos, pois, quando menos se espera, cada gota pode transformar-se em grandes enxurradas que levam tudo que estiver pelo caminho…

Nas tempestades, é melhor estar debaixo de um teto com roupas secas e quentes…

Cubra os espelhos para que não atraiam raios…não coloque sua imagem em risco…na tempestade podemos ver reflexos que não são reais…figuras distorcidas ou expressões que não condizem com o que somos realmente.

Respeite a tempestade, espante-se com o imprevisível. Tenha paciência, saiba que tudo voltará à normalidade…mesmo que essa normalidade não seja a mesma vivida anteriormente.

Previna-se. Tampe os buracos das telhas e os vãos das janelas para que ao deparar-se com a próxima chuva os estragos sejam menores. Fique em paz. A natureza saberá seguir o seu rumo…

Márcia Regina

Publicado em: às março 19, 2012 em 1:24 pm  Deixe um comentário  

Móbile

É comum ouvir impressões e comentários sobre fatos e pessoas a partir de uma determinada ocasião. Geralmente, é desta maneira que julgamentos, decisões e atribuições são elaboradas. Nem sempre os critérios se firmam em grandes espaços de tempo, nem sempre as análises se consolidam sobre a completude da vida. Normalmente se baseiam num ou noutro evento de destaque, desconsiderando o todo, também importante para valorar com profundidade histórias e contextos.

O sociólogo Max Weber utiliza um conceito de situação interessante para descrever o que dizemos. Considera que uma situação é um momento único, onde a diversidade de questões, eventos e fatos se cruzam para marcar e registrar um determinado instante social, econômico, político característico e, portanto, histórico, que dificilmente se formará novamente com as mesmas características. Desta maneira, entende o autor, os fatos não são estanques na história, mas resultados de contextos móveis que num determinado momento, a partir da formação de tudo que lhes envolve, imprimem uma determinada imagem, como que numa fotografia que, além de não demonstrar com total exatidão aquilo que registra, é incapaz de captar o que está no entorno da cena.

A definição de Weber pode nos lembrar que pessoas e fatos nem sempre são somente o que aparentaram no momento em que foram marcados, mas, resultados de um processo de elaboração contínua de suas histórias, e que não se explicam somente pelo que os destacou, tampouco pelo que os fez chegar àquele instante.

Desta maneira, é preciso considerar a totalidade das coisas ao olharmos para os processos da vida. Julgamentos, impressões e conclusões, não devem, para não cair em grande equívoco, se pautar por imagens únicas, congeladas. É preciso entender e aceitar o andamento das coisas e a diversidade de formações que a vida, em sua complexidade, pode causar às pessoas. Como num móbile, que constantemente se move e se transforma, os acontecimentos, as ações, palavras e olhares, fazem mudar a cada minuto a posição de formas, cores e imagens do que somos. É um erro considerável tabular alguém por uma determinada situação, formada pelas incertezas das ocasiões e pela fragilidade de emoções e anseios. Não é possível conceber heróis infalíveis, assim como aceitar a existência de vilões permanentes. Toda pessoa deve ter a oportunidade e o direito de mudar. Nem sempre somos anjos, nem sempre somos demônios, mas é preciso aceitar que, no movimento da existência, estamos passíveis de sermos confundidos com um ou com outro.

O texto sagrado parece tocar neste drama ao repetir vinte e seis vezes a expressão “cada dia”, quem sabe admitindo a oscilação do tempo, da vida e das direções, lembrando que o raiar de um novo dia pode vir acompanhando novas situações, desafios, composições e imagens, fazendo a vida, a impressão e tudo o que somos alterar-se, hora pra bem, hora pra mal, revelando nossa natureza inconclusa, anunciando que a vida deve ser vista como continuidade, movimento e explicada por trajetórias de momentos que, nem sempre, estão em nosso controle.

Por isso tudo é bom lembrar quão voláteis podem ser as avaliações que fazemos se
considerarmos que, em diversas ocasiões, a força dos acontecimentos pode refletir imagens distorcidas, ou, simplesmente a transição do que iniciou e ainda não acabou.
Quem dera, possamos entender isto e perceber mais os movimentos desse grande móbile chamado vida para discernir com maior inteireza os fatos, as pessoas e nós mesmos.

Rev. Nilson

Publicado em: às março 16, 2012 em 3:51 pm  Deixe um comentário  
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