Nem demais, nem de menos.

•Junho 23, 2009 • Deixe um comentário

balança

Já se disse que tudo que é demais faz mal. Gostaria de dizer que tudo que é de menos, também.

Num dia desses, o Jornal Hoje, da Rede Globo, fez uma reportagem mostrando que a dose correta de cálcio, pode reduzir a gordura do abdômen e, para a minha surpreza, a matéria apresentou uma senhora que perdeu quinze quilos com uma dieta à base de leite e queijo, ou seja, rica em cálcio. Porém, no final, o repórter, alertou que para um bom resultado, é preciso que se ingira a dosagem certa de cálcio, de 1000 a 1200 ml/dia, nem mais, nem menos.

A partir do telejornal, reforcei minha antiga convicção: os excessos são prejudiciais, mas a dose certa, é sempre salutar. Tudo é bom e tudo é ruim, sem exceção. Água em pouca quantidade, mata, mas em grande quantidade, também. Assim acontece com a alimentação, com os exercícios físicos, com a proximidade com as pessoas. A propósito disso, um amigo que tem uma tese muito sábia, diz ele: amizade boa, acontece quando se tem a distância de um braço esticado… se você se aproxima menos que isto, é ruim, mas se afasta mais que isto, também.

Há quem se prejudique com muita razão e quem, ao contrario, tenha danos sérios na vida, por ser só emoção. Há quem sorria muito e seja de difícil relacionamento, mas há ainda quem seja tão sisudo que espante todo mundo. Por isso insisto: tudo que é demais, faz mal… qualquer extremo é patológico. Pra mim, isto deve ser levado em conta para se viver bem. Nada justifica o excesso e qualquer excesso é um princípio de obsessão.

O ideal é a dose certa, a boa medida, o bom tempero do que fazemos. Isto nos remete ao equilíbrio da vida, que em sua plenitude, não é tanto lá, nem tanto cá, é equilibrada.

Apesar disso, o meio termo, o equilíbrio ou a dose certa, como queiramos chamar esse ideal do bem viver, é um exercício muito complexo. Normalmente, as pessoas vivem mais confortáveis quando estão desequilibradas, ou equilibradas num ponto diferente do que seja o central. Por incrível que pareça, isto acontece. Existem pessoas que preferem se manter a alguns metros da linha central das questões mais tensas. Quem se coloca no meio, buscando um maior balanceamento, é rejeitado pelos dois pólos da balança, pois não pertence a nenhum dos dois pontos. Quem assim procede, é acusado de não ter lado, de não ter opinião, e de querer a amizade de todos. Quase sempre, quem procura contrapesar amizades, tensões, tendências e pontos de vista é quem consegue ver qualidades e defeitos dos dois lados e almeja a amizade mais do que discutir opiniões.

Procurar uma dose certa, ideal, equilibrada das coisas, passa a ser pecado mortal num mundo que se constrói em partidos, facções, linhas de pensamento e tendências, porque existem pessoas que preferem se ferir e se matar por conta de suas diferenças.

Quem procura a dose certa, não é quem procura a neutralidade. A neutralidade é, quase sempre, transvestida de omissão, que é, em todas as horas, maléfica e há formas difíceis, mas possíveis, de se manter em equilíbrio, sem se manter neutro. Basta fazer bom uso da coerência, da honestidade, da imparcialidade, do bom senso e da boa vontade.

Acredito que um dos grandes ensinamentos de Cristo seja o de viver equilibradamente, sem exageros, afinal, suas ações demonstraram isto… talvez o que o possibilitou ser tão ríspido no relato de Mateus 7.28, com uma mãe que o procurava para curar seu filho, ou tão tolerante no relato de Lucas 19.5, com um cobrador de impostos, desonesto, com quem foi almoçar. E o que dizer de como era exigente com Pedro, o apóstolo e, ao mesmo tempo, compassivo com Judas, que o traiu.

Jesus podia ver o bem e o mal das pessoas e o que as tornaria mais equilibradas em sua auto-estima, em sua fé. Jesus tinha a capacidade de puxar o desacreditado de sua amargura, assim como de resistir a falsa carência de um necessitado. Jesus queria que as pessoas que com ele estavam, percebessem, que o bem da vida está na capacidade de manter-se equilibrado entre a crença e a dependência, a força e a fraqueza, a ação e a espera, o saudável e o doentio.

Rev. Nilson.

Olhai os lírios do campo

•Junho 11, 2009 • Deixe um comentário

lírio do campo

Enquanto aguardávamos para passar nossa compra no caixa de um supermercado, eu e minha esposa, notamos que uma senhora que estava à nossa frente – grávida e com dois filhos pequenos – selecionava o que ia levar. Alguns produtos iam para a cobrança e outros eram deixados no carrinho. Percebemos que o caso era financeiro… e, quando, finalmente terminou a ‘seleção’, fechou a compra e pagou com alguns trocados que tinha na bolsa.

Um dos filhos, de aproximadamente cinco anos, ao perceber que o pacote de bananas fora deixado, começou a chorar, exclamando alto: “a banana, mãe! A banana!”… aquilo cortou nosso coração. Imediatamente chamamos a senhora e dissemos que passaríamos o pacote de bananas, ao que ela e o menino nos agradeceram muito. O pacote custou pouco mais de um real!

Fatos assim, apesar de serem, quase sempre, invisíveis aos nossos olhos, acontecem frequentemente… debaixo de nosso nariz. Infelizmente, existem carentes de migalhas, que, todos os dias, caem de nossas mesas… sem que percebamos. Pessoas que passam por necessidades pequenas demais para considerarmos possíveis.

A vida urbana, ao contrário disso, nos faz olhar para outros lados. Somos atraídos pelas janelas que nos assediam em nossas ‘navegações’ pela internet… televisores, celulares, computadores de última geração e automóveis, muitos automóveis, dos mais diversos modelos e marcas, cada um mais sofisticado que o outro.

Temos nossa vida atormentada pela diversidade da cidade… e pelos seus vários encantos. Os supermercados com suas guloseimas, os shoppings com seus atrativos sem fim. As roupas, os sapatos, relógios, eletrodomésticos, eletrônicos, artigos de decoração, perfumes, cosméticos, cinemas, teatros, restaurantes e coisas afins. Tudo isto distrai nossa atenção, nos enchendo de um ‘sem fim’ de necessidades.

Isto nos leva à ansiedade! Nos faz precisar de mais… preparo, para sermos mais competitivos, dinheiro, para comprarmos mais, beleza, para seduzirmos mais e termos mais atenção, destreza, para chegarmos primeiro às melhores conclusões, inteligência, para melhor nos destacarmos.

Assim, corremos muito, sem nem saber aonde ir… somente pela excitação da velocidade, que nos faz mais rápidos que os outros, sem perceber os que vão pelas margens, sem condição, sem oportunidade, sem saúde, sem tudo o que os colocaria em pé de igualdade com o mundo feroz que os cerca.

Esse cenário nos faz lembrar das palavras de Jesus, descritas por Lucas (cap.12) ao tratar exatamente sobre este assunto dizendo: “…não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir (…) observai os lírios; eles não fiam, nem tecem. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.” Jesus advertia para que seus discípulos não entrassem nessa ‘roda viva’, nesse frenesi que contagia a sociedade, que distancia da vida, da essência, do principal.

Mais que isto, Jesus dizia, “olhem para os lírios”, para a simplicidade da vida, para a naturalidade e a fragilidade que é capaz de trazer paz, sossego, verdade, sentimento e sentido. E cá com meus botões, penso que ao recomendar “olhem para os lírios”, Jesus queria ponderava também, “olhem para aqueles que não têm ninguém por si, que vivem sós, desamparados, sem as condições que vocês têm, de se alimentar, de se vestir, de prosperar, de pensar e querer algo melhor do que possuem” … “olhem melhor para suas vidas, para o que estão fazendo com elas, para o exemplo que estão dando a quem vem depois, e o que estão construindo dentro de si”.

Rev. Nilson

A ilusão de Pasárgada

•Junho 1, 2009 • Deixe um comentário

Pasárgada

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886. Depois de muitas idas e vindas, passando pelo Rio de Janeiro e Santos, Bandeira, em 1903, já residindo em São Paulo, se matricula na escola politécnica, pretendendo ser arquiteto, onde estuda, simultaneamente, desenho e pintura. Somente em 1912 é que começa escrever seus primeiros versos livres.

É dele um dos mais famosos poemas brasileiros… “Vou-me embora pra Pasárgada”. Pasárgada significa “campo dos persas” e é atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, situado 87 km a nordeste de Persépolis. Foi a primeira capital da Pérsia Aqueménida, no tempo de Ciro II da Pérsia, e coexistiu com as demais, dado que era costume persa manter várias capitais em simultâneo, em função da vastidão do seu império: Persépolis, Ecbátana, Susa ou Sardes. É hoje um Patrimônio Mundial da Unesco .

Mas para Bandeira, Pasárgada era uma terra fantasiosa, onde, de alguma forma, todas as suas frustrações e mazelas poderiam ser esquecidas ou superadas. No sonho dessa terra, o poeta deflagra suas utopias mais íntimas, reiterando o motivo desse desejo intenso de partir. Muitas alegações são colocadas… diz ele: “Lá sou amigo do rei”… “lá tenho a mulher que eu quero”… “aqui não sou feliz”… “lá a existência é uma aventura”… “e como farei ginástica”… “montarei em burro brabo, subirei no pau-de-sebo, tomarei banhos de mar! … e quando estiver cansado, deito na beira do rio”. E no seu iludido devaneio, justifica: “Em Pasárgada tem tudo, é outra civilização (…) tem telefone automático…”.

Segundo a crítica literária, Manuel Bandeira não tinha lá uma vida feliz. Seus problemas de saúde impediam que ele fosse “tomar banhos de mar”, e a realidade em si era algo deprimente. Pasárgada é um reino no qual ele pode ser feliz. O desejo de escapar da realidade foi o que consolidou Pasárgada, lugar no qual ele é amigo do rei, pode ter a mulher que ele quiser, terá mimos da infância (afinal, alguém vai contar histórias para ele), poderá praticar exercícios sem temer os problemas oriundos da tuberculose.

Mas não se pode julgar mal este poeta que encontrou em sua poesia uma solução transcendente para seus dilemas mais profundos… afinal, de alguma maneira, em algum momento, cada pessoa constrói uma Pasárgada para si… um país imaginário, ou mesmo real, onde as frustrações dos problemas diários encontram solução… um lugar para onde se deseja partir, ou fugir… mesmo que seja somente para ter a chance de deixar pra trás o que, supostamente, não é bom.

O cenário bíblico nos conta de uma pasárgada também… nos evangelhos, logo após o sacrifício de Cristo, dois de seus discípulos partem para uma pasárgada chamada Emaús – uma cidade próxima de Jerusalém. Era um momento difícil, triste e frustrante… o mestre Jesus, havia sido preso, mal tratado, humilhado, torturado e morto e todo o projeto de vida daqueles homens, aparentemente, havia caído por terra.

De algum jeito, cada pessoa, passa por momentos difíceis, desses em que se deseja partir. Normalmente, a visão da emoção, nessas horas, se volta para algum lugar que, diante da ansiedade e da aflição, torna-se ideal e, assim como no caso do poeta, a ilusão toma o lugar da razão criando oásis de felicidade e realização, mesmo que isto não corresponda com a realidade.

A esperança de viver melhor, longe de limitações e situações desagradáveis, para o poeta, estava em Pasárgada e para os discípulos de Jesus, o melhor lugar para estar naquele momento de decepção, era longe de Jerusalém, mesmo que fosse num vilarejo chamado Emaús. Mas a Pasárgada imaginária de Manuel Bandeira, nunca existiu de fato, assim como Emaús, era somente uma fuga da realidade dura e desafiadora.

É preciso tomar cuidado com a ilusão de Pasárgada, para não cair na tentação de deixar a Jerusalém da vida, que é simbolizada pela situação difícil, mas necessária para quem quer passar pela incrível experiência de ver Cristo ressuscitar, trazendo de volta a possibilidade da vida plena, de alegria, sucesso e realização.

Rev. Nilson.

Um dia vou ter um sol!

•Maio 23, 2009 • Deixe um comentário

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Minha esposa recomeçou sua vida docente após ser aprovada num concurso público. Dar aulas para crianças do ensino infantil é um ‘sonho de consumo’ para ela.

Após a primeira impressão, veio a aproximação maior com os pequeninos – ela está num momento de estágio para se ambientar com os processos pedagógicos. Observando a professora que, sabiamente, trata com a diversidade de personalidades do grupo de alunos, passou a formar dentro de si as personagens que fazem parte dele.

Existem lá os chorões, os briguentos, os que sabem se expressar, outros que, segundo ela, falam muito, mas ninguém entende o que dizem… uns precisam de assistência maior, outros são mais independentes, enfim, o que seria natural numa turminha de crianças com idade média de quatro anos.

No segundo dia, ela percebeu um detalhe… melhor, dois… dois “bebezinhos” ainda, deficientes visuais, o que muito a consternou. Contou que um deles é emburrado, quieto e de trato mais difícil, enquanto que o outro é sorridente e brincalhão. Disse que as professoras das “classinhas”, têm um jeito especial com ambos e sabem tratá-los com naturalidade, desafiando-os à vida que, certamente, é mais complexa para eles.

Mas uma cena especial fez doer seu coração… quando o menino mais extrovertido, num dos momentos de brincadeira com os amiguinhos, exclamou alto e, aparentemente, sem motivo: “Um dia vou ter um sol!”.

Quando ouvi esta pequena história, que me comoveu muito, comecei a pensar como o menino pôde falar aquilo… sem perceber a dimensão do impossível que tocou e, ainda que tenhamos fé e saibamos que diante de Deus sua deficiência pode se reverter, é impactante imaginar qual sentimento o levou a dizer aquilo.

É a esperança! Concluí. A mesma esperança que faz aquecer o coração dos que olham para a realidade, sem ver saída para o seu problema… do faminto que sonha com a possibilidade de se alimentar, com o desabrigado que se infla na certeza que poderá reconstruir seu lar… do desprotegido que espera pelo socorro na hora da angústia.

Mais que esperança, a afirmação daquele menino tem a ver com um sonho… que o faz ter o prazer antecipado do que ainda não é possível… num exercício de consolo e conforto que o faz superar a desolação.

Mais que isso tudo, é Fé! É essa certeza que o improvável um dia se tornará realidade, que o impossível se tornará possível, que o inexistente virá, inexplicavelmente, a existir e, acima de tudo, que vale a pena viver, sorrir, querer… mesmo sem ver o sol que todos vêem, mesmo sem ter a luz tão necessária para se guiar, mesmo que haja uma esperança diferente de que se o sol de todos não for possível, haverá um sol a brilhar na escuridão de suas limitações… um sol, mesmo que seja só seu, e que somente ele possa ver.

Quem dera tivéssemos também essa fé transcendente, declarada por aquele garoto… quem dera tivéssemos a alegria da espera, mesmo que fosse de algo improvável, ou mesmo impossível, quem dera pudéssemos nos encher de uma esperança maior do que nossa possibilidade, para poder sorrir, viver e sonhar diante do sentimento mais desafiador da vida, a fé.

Rev. Nilson.

A nova família, a antiga recomendação (pelo mês da família)

•Maio 18, 2009 • Deixe um comentário

A família

Presume-se que em algum lugar do passado tenha sido tarefa fácil pensar sobre família. Este parece não ser o caso do mundo contemporâneo. Se entendermos família como um grupo de pessoas que vivem sobre o mesmo teto e se caracteriza, especialmente, pelo laço sanguíneo, étnico e de ancestralidade, podemos dizer que as coisas não funcionam mais desta maneira. A família moderna, ou pós-moderna, não se amolda mais nos antigos padrões sociais. Nem sempre contém um pai, ou mesmo, uma mãe. E se existem filhos, não é de se esperar que sejam do mesmo pai, ou da mesma mãe. Pode até ser que sejam somente de um ou de outro, sem ligação de parentesco. Os casais nem sempre são casados – da forma tradicional, civil e religioso – às vezes são como namorados. A propósito, o namoro atual é como o casamento antigo, com relações mais sérias como vida sexual e financeira.

Segundo dados do IBGE nas duas últimas décadas houve uma queda substancial do tamanho da família em todas as regiões: de 4,3 pessoas por família em 1981, chegou a 3,3 pessoas em 2001. O número médio de filhos por família é de 1,6 filhos. Em 2002, o número médio de pessoas na família se manteve o mesmo em quase todas as regiões e por isso a média para o país se manteve em 3,3 pessoas, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2003. O número médio de filhos apresentou uma diferença mínima em relação ao ano anterior: de 1,6 para 1,5 filhos na família em domicílios particulares. A socióloga Ana Lúcia Sabóia, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz que o processo de queda do número de pessoas na família brasileira “além de intenso, aconteceu em um tempo muito curto. Nos países europeus, esse decréscimo demorou cinquenta anos”, afirmou a especialista.

O formato familiar também sofreu acomodação. Em nossos dias sabe-se de avós que cumprem o papel dos pais, ou famílias lideradas somente pela mãe, ou somente pelo pai. Há também estruturas mais complexas, com mãe e avó ou pai e avó, ou ainda, mãe e pai com padrasto e madrasta. Também casais homossexuais que passam a formar famílias de pai, pai e filho ou mãe, mãe e filho. Além disso, algumas famílias são formadas somente de irmãos e irmãs, outras somente de casais, outras de pessoas que se aproximam sem fins afetivos, mas que por diversas razões, acabam exercendo mutuamente o papel de cuidadores.

Os valores presentes na modernidade também incidem sobre os moldes familiares. O pluralismo, como capacidade multidisciplinar de interpretação das questões da existência, tão adequado aos novos contextos da civilização, favorece o surgimento de conceituações diversas sobre a qualidade e o modelo de vida. Assim, as variadas opções do comportamento humano tornam-se plausíveis numa mesma sociedade. Por consequência, surge o individualismo, que valoriza a autonomia individual em detrimento da hegemonia da comunidade, formando em cada um o status de ‘ser exclusivo’, enfatizado por conceituações pessoais em prejuízo de um comportamento familiar.

A ocorrência de fatores tão diversos faz nascer uma nova personagem social, capaz de estabelecer sua individualidade de maneira evidente, mesmo como participante de um grupo característico como a família. Este fato gera um antagonismo pessoal diante do sentimento de pertença e de autonomia, criando ambientes de proximidade e distanciamento simultâneos, onde a pessoa torna-se distante de quem é próximo e alheio de quem com ela come e dorme. Nesse contexto está a família contemporânea, como instituição reorganizada pelos diversos desafios que a vida moderna impõe.

Além de tudo isto, porém, estão fatores como afetividade e emoção, que tratam sobre quais sejam os últimos anseios da vida humana. Próximos, distantes ou em relacionamentos diversos entre pais, irmãos, padrastos, madrastas, avós e companheiros, os processos de convivência estão sempre dependentes desse fato e por mais que se queira evitar embates que envolvam a alma, como sentido do que somos, a vida sempre nos remete ao mesmo ponto, como numa insistência intensa de nos fazer viver cada vez melhor.

Um ponto importante dessa discussão está além de nossa razão, toca diretamente o coração e se traduz por uma só palavra: amor. A partir disso, nos lembra o apóstolo: “…se não tiver amor, nada serei” , quem sabe nos provocando para o fato de que para se viver, há que se amar e, de maneira mais específica, para se viver em família, há que se promover a prática desse sentimento transformador.

Se, frente aos novos momentos sociais existem desafios que unem pessoas diferentes de baixo de um mesmo teto e, ao mesmo tempo, separa os que são iguais… se a revolução de poder, ciência, sexo, direito e religião nos desestrutura em nossos antigas bases… se nem sempre existem explicações prontas para as novas situações a que somos submetidos… há de se pensar, primeiramente, em temas como respeito, tolerância, persistência e desprendimento, como valores que garantam as ligações da amizade e do bem viver. Se, como pais, filhos, parentes ou agregados, não formos capazes de garantir que o amor complete nossos espaços de diferença, num exercício permanente de quem se deseja próximo, então haveremos de lamentar a tristeza da desesperança e da separação.

Se, de tempos em tempos, for necessário, rever processos, posturas e comportamentos, precisamos saber que isto não poderá ocorrer sem antes garantir o básico da vida, a veia mestra que alimenta nossa capacidade de sonhar e sorrir, a habilidade de amar. Como lembrou o apóstolo, é impossível viver sem amar… é impossível conversar sem amar, entender, ceder, reverter, reviver.

Talvez seja oportuno lembrar a memorável poetisa Cora Coralina:

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar

Que Deus abençoe nossas famílias através de nós e nos abençoe através da possibilidade de amar.

Rev. Nilson.

*ilustração: A família, de Tarsíla do Amaral
Dados do IBGE, em http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/familia.html#anc1 – visitado em 12 de maio de 2009

Sobre a pressa

•Maio 9, 2009 • Deixe um comentário

pressa
Alguém disse que ‘a pressa é inimiga da perfeição’… quem sabe poderíamos dizer que ela tem outras inimigas… a paz, a tranquilidade, a sensibilidade, a harmonia e a felicidade.

A pressa nos leva a ignorar questões significativas da vida, nos impulsionando mais do que precisamos. Na velocidade da pressa, não notamos amizades potenciais, não nos detemos pelos olhares, sorrisos, expressões de afeto… a pressa nos isola de um sem número de momentos especiais, desses que tem a finalidade de adoçar a vida.

Ela quase sempre nos surpreende com preocupações distantes… o amanhã, o depois, o mais tarde, que deveriam ser calmamente aguardados e que se tornam foco de nossa atenção… a pressa, nos faz viver a incrível experiência do transitório, já que tem o poder de nos tirar do agora, que é real, e nos levar para a irrealidade do que ainda não chegou. Assim, não vivemos nem o hoje, nem o amanhã… vivemos, simultaneamente, a esperança do que não temos e a frustração do que está passando sem merecer nosso cuidado.

A pressa rouba de nós a vida.

Quem tem pressa, come cru, não vê a vida passar, não observa integralmente a ternura da pessoa amada, não percebe a evolução dos filhos, não sabe bem como é o nascer e o pôr do sol, não cultiva com atenção as amizades, não se integra totalmente em um grupo, não se alegra por pequenas coisas, não percebe os grandes motivos de estar vivo, não se lança totalmente no propósito de ser feliz, nem se detém… quem tem pressa perde tempo precioso… perde boas oportunidades de crescer, de entender, de aprender, depender e sentir. Pois quem não contempla, não emociona e se emociona, não toca e não é tocado, não passou pela magnífica experiência de olhar a vida frente a frente.

Mas a vida, de certa forma, requer de nós que tenhamos pressa, nos acelerando em suas preocupações e demandas. O cotidiano nos mostra que tempo não é somente dinheiro… tempo é oportunidade, agilidade, astúcia… pois, no imaginário social, quem tem o poder de executar várias tarefas ao mesmo tempo, supostamente, pode mais do que quem só se concentra em uma tarefa… por isso, rapidez ganha agora significado de competência e eficiência… ser rápido remete à inteligência e ao sucesso.

Mesmo parecendo ser impossível viver sem pressa, é necessário repensar a velocidade da vida… encontrar um ritmo que nos equilibre entre a pressa e a lentidão, a satisfação e a ansiedade, o atropelo e a mansidão.

A solução para esta questão parece estar próxima do que o contexto bíblico chama de ‘espera’. Um dos textos que mais nos faz lembrar desta expressão está nos Salmos (Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR – Sl.27.14). A palavra que é traduzida por espera ali, é qavah, que tem origem hebraica e significa aguardar, esperar.

Conjugar estes verbos parece complicado diante de todas as tensões que nos assediam diariamente, mas, aparentemente, necessário para a preservação de nossa saúde física e emocional. Aguardar a concretização das suposições que se formam constantemente dentro de nós, esperar a chegada dos momentos que tanto nos inquietam e, mais que isto, confiar em Deus, em sua justiça, providência e amor, nos momentos em que nos surpreendemos na ansiedade que nos acelera em direção ao amanhã, ao depois e ao que virá, parece bastante salutar.

Esperar pode ser uma boa prevenção contra a pressa, além de nos ajudar a controlar as aflições que tiram nossa paz.

Que o Deus de todo o tempo nos ajude a viver com a serenidade da calma, da espera e da confiança para percebermos que o tempo que temos precisa ser observado, sentido, vivido com a intensidade do que é único, do que passa e não volta, do que vai e não vem.

Rev. Nilson.

Uma vida que vai além

•Maio 2, 2009 • 1 Comentário

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É lamentável, mas, em várias situações, até compreensível, o fato de uma grande parcela da sociedade ser arredia ao ambiente das igrejas. Algumas situações são catastróficas e agridem fortemente a inteligência e o bom senso.

Noutro dia a imprensa noticiou o caso de uma igreja que instalou um ‘ringue’ dentro do salão de cultos, justificando que se tratava de uma estratégia para atingir a juventude. Para a tristeza de quem tem um mínimo de decência em sua espiritualidade, aberrações como estas são cada vez mais visíveis.

Se não bastasse esta confusão toda, existe ainda a questão dos exageros que, além de ofenderem a lógica e a razão, confrontam repetidamente a teologia e a história de muitas instituições sérias. Há muitos eventos que degradam a boa imagem das igrejas do nosso tempo… homilias mal elaboradas, liturgias sem nexo, despreparo e destempero de quem deveria ser símbolo de acolhimento e afetuosidade. Ainda bem que existem exceções… poucas, mas existem.

Por outro lado, vemos a sociedade se lançar no racionalismo, atribuindo valor somente à razão e ao pensamento lógico. Desta maneira as pessoas percorrem caminhos firmados em resultado prático, visíveis e examináveis. A comprovação científica, a constatação e a experiência tornam-se instrumentos para entender e gerir a realidade humana… as pesquisas, os fatos e a demonstração de resultados passam a explicar e a ditar os dramas e sofrimentos da vida.

Existe quem não creia em quase nada pelo fato de não encontrar comprovação… vivendo uma eterna experiência com resultados que são sempre relativos… desprezando tudo o que seja lúdico, emocional, e que envolva algum tipo de sentimento.

Mas a vida humana vai além de tudo isto… de qualquer drama religioso ou institucional… e de qualquer comprovação… viver é experimentar uma realidade inexplicável, incerta, imprecisa e transcendente, algo que não tem receita e não está preso a qualquer convenção, humana ou mística.

Viver é equilibrar sentidos e permitir-se ao metafísico… sem isto, a vida fica fria, rija e pobre. A racionalidade por si só não responde aos dramas que temos em nossa alma, assim como a mística por si só não resolve as questões de nosso corpo.

Mas a fé está longe disso tudo… ela é um evento isento de qualquer explicação… é certeza, quando não existem possibilidades, crença, quando não se vê comprovação, visibilidade, quando não existe luz.

Então, é imprescindível orar, da forma mais espontânea que possa haver, crer, da maneira mais singela, perceber, do jeito mais crédulo… cantar, com o mais profundo sentimento e esperar com a esperança de quem não pode explicar nada.

Para viver bem, precisamos nos libertar das distorções que temos de Deus para nos libertarmos das prisões que criamos para nós mesmos… prisões que nos impedem de exercitarmos livremente nossa religiosidade a fim de encontrarmos um ambiente para Ele dentro de nós.

Que Ele nos ajude a alcançarmos isto.

Rev. Nilson.

Quando nossas portas se fecham

•Abril 24, 2009 • 1 Comentário

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Quando nossas portas se fecham no final do dia, voltamos a ser somente nós mesmos, e mais nada. É nessa hora que refletimos sobre o que vivemos, sobre as pessoas que nos rodeiam e o que representamos. Nestas ocasiões é que os dramas pessoais afloram… as amarguras, mas também é quando nos reencontramos com nossos sonhos e esperanças. Com a porta fechada, podemos nos despir e nos mostrar… sem disfarces e máscaras.

Este ambiente que temos conosco mesmo é muito íntimo, muito pessoal e inatingível pra quem fica atrás da porta… e normalmente nos escondemos de todos ao entrarmos nele.

Assim como nós, as pessoas que convivem conosco também tem esses refúgios, onde as razões que as movem reaparecem… os motivos que as fazem chorar, sorrir e viver. Isto é segredo pra nós, mas quase sempre nos atinge também.

Há quem seja ativo, alegre, forte, fora da porta e triste, frustrado e melancólico quando adentra por ela. Existem problemas familiares, lembranças, traumas, frustrações não públicas… ou solidão, insegurança, angústia, desgosto e até agonia que ficam lá. Existem pessoas que moram sem ninguém, sem ter com quem conviver, conversar, dividir, esperar e quem sofra de dores crônicas como a falta de realização ou de felicidade.

Mesmo que se esconda, ou se tente esconder, o que acontece porta adentro influi no que se passa porta afora, quando, sem motivo aparente, pessoas se insurgem contra outras a procura de uma vingança para suas dores internas… lançando fora frustrações e mazelas.

Por isso, parece complicado conviver sem tentar imaginar o que acontece por trás da porta de quem está ao lado… não com a curiosidade pertinente a nossa humanidade, mas com a sensibilidade de quem procura encontrar uma explicação para as aflições que circulam a convivência.

Precisamos buscar mais que justificativas, precisamos discernir as motivações que corroem um coração sofrido que, mesmo agressivo, é passível de misericórdia e cuidado.

Assim foi que Jesus tratou de seus relacionamentos… perscrutando mais o que havia atrás da porta de cada um do que na aparência crua… entendendo, mais que julgando, sofrendo mais que se ofendendo, andando segundas, terceiras milhas, num oferecimento solidário de consolo e compaixão.

Rev. Nilson.

Um outro carpinteiro

•Abril 22, 2009 • 1 Comentário

avo

Como se diz por aí, só não nasci na Igreja porque não era dia de culto. Sou o segundo filho de uma família ‘carola’… daqueles tipos ‘crentões’, mesmo. Meu Pai foi Presbítero da Igreja Presbiteriana, onde participava, com minha mãe, do coral da Igreja, que depois se transformou num quarteto. Minha mãe foi ativa também, foi presidente do grupo de mulheres algumas vezes. Como era de esperar, eu segui o mesmo caminho… aos quinze anos, migrei para a Igreja Metodista, onde conheci minha esposa, me casei, batizei os filhos e me tornei pastor – nesta ordem.

Foi na Igreja Metodista de Bandeirantes, no Paraná, que meu avô e minha avó se tornaram evangélicos em 1947 e nunca mais deixaram de ser. Por várias questões, meu avô se tornou Assembleiano – questão de gosto. Varias vezes o acompanhei em sua igreja… na maioria das vezes, íamos a pé… meu avô sempre usava terno e tinha uma grande dedicação pela sua religiosidade. Lembro-me com saudades de suas orações… ele e minha avó tinham por hábito fazer cultos domésticos pela manhã e à noite. Curiosamente, meu avô lia sempre o mesmo texto bíblico… lembro-me bem, era o Salmo 91… “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”. E todas as vezes, ele repetia a mesma oração… aquilo ficava marcado na gente… pela simplicidade e pela devoção… não importava quem estivesse em casa, o culto sempre acontecia… de manhã e à noite.

Existia um profundo significado em ser cristão… tudo girava em torno disso… a vida era, de fato, guiada pelo intenso desejo em praticar a “vontade de Deus”. As pessoas em volta, vizinhos, conhecidos, logo identificavam quem era ‘crente’… o que não era fácil… existia discriminação, diferenciação… mas, em compensação, a sociedade em geral valorizava isto de maneira irônica… ao mesmo tempo em que éramos alvo de chacotas, nos respeitavam pelo testemunho, pela seriedade na moral, nos negócios. A gente era diferente e fazia diferença.

Depois de muitos anos, e já se vão 27 anos sem o meu avô, tento descobrir o que o fazia especial, afinal, foi um homem simples, quase que totalmente sem cultura, com pouquíssima escrita e quase nenhuma leitura… um homem, realmente, simples de espírito. Algumas coisas ainda me fazem mais intrigado… em suas pregações e testemunhos, ele não se cercava de ‘referências’ – várias vezes o vi pregando na igreja – nem sabia o que era contextualização, hermenêutica, exegese… antes, falava de coisas simples, naturais ao povo que ouvia… contava de seu dia a dia, das lições que tirava em seus dramas… falava de histórias vividas por ele, pelos seus pais, conhecidos, irmãos de igreja… sua mensagem era pura, sem erudições, sem frases impactantes, mas tinham tanto efeito… pessoas eram curadas de seus medos, angústias, desespero.

E pensar que nossas histórias – evangelicamente falando – passaram por gente assim… e que a Igreja foi sustentada por eles… cresceu através de suas vidas… marcou seu tempo, fez história. Posso dizer que conheci um pouco do que o apóstolo Paulo chama de “a simplicidade e a pureza de Cristo” (2 Cor. 11.3)… um evangelho sem recortes, sem ‘arte’, sem ‘estratégias’, sem ‘cultura’… que era demonstrado só com a vida, mais nada… e, talvez, por isso mesmo, tocava tantas pessoas… trazendo sentido, esperança, alegria, paz, vontade, pé no chão e, o melhor, salvação!

Olhando para o nosso tempo, que se considera tão evoluído, penso: quem dera tivéssemos o desprendimento de não transformar nossas mensagens em demonstração de conhecimento teórico… contássemos histórias, fatos, acontecimentos, como Cristo, que pudessem ser contados com nossa emoção e espiritualidade… falando mais do que somos e não somente do que lemos… tivéssemos testemunhos ao invés de erudição…

Quem dera tivéssemos a coragem de sermos como foi meu avô… um João simples… um outro carpinteiro, como Jesus… modesto, humilde, como os discípulos de Cristo, e, como eles, anunciador de sua própria experiência, de sua própria alegria… capaz de não se deixar corromper pelo próprio pensamento, como sugeriu o apóstolo no mesmo texto citado.

Rev. Nilson.

Água mole em pedra dura…

•Abril 18, 2009 • 1 Comentário

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Há quem não aceite a estratégia persistente da água que, apesar de ser fraca e sem a rigidez da pedra, tanto insiste em sua intenção que acaba por esculpi-la. Esta imagem, relatada no ditado popular é mais que o retrato da sabedoria simples do povo. A meu ver, a frase, a muito repetida, revela a realidade de quem se depara, em certas situações, com uma única opção, perseverar.

A água, um dos elementos mais nobres da vida, sugere diversas realidades como, o refrigério num dia quente, a possibilidade da limpeza, o relaxamento… de alguma forma, também, pode significar a insegurança, a falta de sustentação… sem dúvida, a água tem a representação da vida, da natureza, do alimento, que é, na maioria das vezes, preparado através dela… e por ela germinam as sementes, surgem os peixes, garante-se a saúde dos animais e, por conseqüência, da humanidade. Apesar disso tudo, a água é leve, maleável, condutível… afinal ela não impõe caminhos, antes se curva às intenções dos rios, dos lagos e mares… a água é generosa… parece não ter grandes metas… deixa-se levar… segue o curso, sem se preocupar aonde chegar.

Talvez, por isso, seja difícil aceitar a afirmação do ditado… que fala de uma água que fura a rocha… que bate e persiste.

As pedras são insensíveis… frias… estáticas, inflexíveis… param e permanecem em sua rigidez, sem temer nada, sem se importar com nada… são imóveis, quase sempre, pesadas, sem ação, sem reação, fortes, difíceis e complexas. Por isso é tão difícil tê-las pelo caminho… pois, diante delas, só mesmo a tolerância, a compreensão, a paciência representada tão gentilmente pela água. Existem algumas possibilidades diante das pedras. Ceder, como a água ou explodir, como a dinamite.

Alegoricamente, somos como estas figuras. Alguns de nós somos frágeis como a água… pacienciosos, calmos, generosos, acessíveis, pacíficos… outros, como as pedras, densos, fechados, difíceis e inflexíveis. E o drama do rio, que se constitui de água e pedras, se repete na vida… e o que fazer diante das ‘pedras’ do caminho?

Há quem opte pela estratégia da água… dando volta, flexibilizando, sendo maleável… mas, também, existe que prefira agir como a dinamite… explodindo, abrindo caminho a qualquer custo.

Mas o ditado, nos dá uma terceira via… a da água teimosa, que, apesar de ser tolerante, gentil e frágil, sabe insistir, com paciência e persistência em seus ideais. Este caminho, que trabalha com tempo, temperança, resignação e tática, parece dar os melhores resultados. A beleza de muitos rios está nas esculturas feitas nas pedras, pelas águas que, pouco a pouco, transformam ranhuras em arte.

As estalactites, por exemplo, são formações rochosas sedimentares que se originam no teto de uma gruta ou caverna, crescendo para baixo, em direção ao chão da gruta ou caverna, pela deposição de carbonato de cálcio arrastado pela água que goteja do teto, com formas tubulares ou cônicas, enquanto que as Estalagmites são formações que crescem a partir do chão
.
Lembremos também dos grandes ‘canyons’, que são gargantas rochosas imensas produzidas pela ação erosiva das águas… são nada mais do que maravilhas da natureza produzidas pela paciência e determinação de muitas águas.

Assim, podemos concluir que a estratégia teimosa da “água mole em pedra dura…”, é menos dolorosa e mais artística, menos violenta e mais bonita, além de ter a grande virtude de ser generosa, harmoniosa.

Não é fácil conviver com as pontas cortantes das pedras… mas, talvez, se tivermos a perseverança e a disposição da água, poderemos gerar ambientes mais agradáveis e construir, uns nos outros, belas obras de arte.

Rev. Nilson.